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Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008
Conto das “mãos vazias”

 

 
Conto de Luz é o nome que apadrinha o projecto da CM Lisboa para celebrar o Natal de 2008 na cidade de Lisboa. Numa época de crise financeira, económica e, consequentemente social, a celebração do Natal só pode ser mesmo um conto. Infelizmente, para a maioria das famílias cada vez mais escuro.
Apesar da crise económica que o país atravessa, a empresa contratada para o desenvolvimento do evento em Lisboa - Blachere Iluminations - é a mesma que assegura a decoração da cidade das luzes. Da cidade que matou Deus, ironicamente, contra a razão que herdámos do secularizado iluminismo francês, agora cremos, praticamos e encomendamos-lhes a celebração dos rituais de uma outra religião. Não a religião do Deus menino que iluminava o homem, mas do materialismo que agora nos cega mediante a iluminada alienação proveniente do culto ao consumo.
Confesso que me incomoda cada vez mais a celebração do Natal. Não do advento mas do conto. Do conto que nos é apregoado em clichés publicitários - “O presente Perfeito”, “ Onde o Natal é mais barato”. Do conto que nos é lido como o maior presente. Do conto que observamos mergulhados num mar de prendas. Em meio destas reflexões, lembrei-me de uma jovem palestiniana.
Com o seu testemunho aprendi que o Natal não é apenas boas notícias com anjos a cantar canções de paz e fraternidade. Aprendi que o Natal também está mergulhado numa terrível história de uma reputação perdida perante família, noivo e de angústia na eminência da morte. Porém, com ela também pude relembrar que apesar do choque, o choro pode durar uma noite mas o cântico vêm pela manhã. Mais que uma melodia ou expressão de sentimentos, este cântico revela o conhecimento e a confiança nas Sagradas Escrituras.
Finalmente com ela também pude aprender que a Estrela não nos leva ao palácio mas a esse rico e maravilhoso lugar cuja a humildade transforma o valor das ofertas em significado. Sem prenunciar uma só palavra, ensinou-me que existe tanta riqueza nas mãos vazias dos pastores da cidade de Belém como no presente dos Magos. Ela não usou o ouro como adorno do recém-nascido antes transformou-o na garantia da protecção e sobrevivência da criança durante os dois anos de refúgio no Egipto.
Não é a melhor forma para terminar um conto, muito menos de luz, mas a história de Natal da jovem Maria termina numa fuga. Uma fuga que fez escapar o filho de um entre os maiores martírios da história – a morte de todas as crianças residentes na cidade de Belém com menos de um ano de idade. Independentemente do lugar onde nós habitualmente terminamos as nossas leituras litúrgicas, ao contrário dos contos, a história do Natal termina com o choro de muitas famílias perante a chacina de muitas crianças.
No ano em que o BPN fez estremecer a banca nacional e instalar-se a insegurança das poupanças que restam a alguns, no ano que o BPP gerou a profunda polémica no perante as garantias que o governo deu às fortunas dos mais ricos, no ano em que as manifestações contra as condições laborais endureceram violentamente, no ano em assombrosamente cresceu o número de famílias em colapso financeiro, no ano em que o desemprego avassalou o país, neste mesmo ano, tal como Maria, apesar da adversidade das circunstancias, precisamos ser capazes de olhar para as Escrituras de modo a que elas despertem em nós um cântico de esperança – Esperança traduzida na aceitação da missão do menino como Salvador.
Talvez como nunca antes, este Natal pode voltar a ser Kairos. Um desafio para que o nosso Kronos se apresente de “mãos vazias” e no lugar das prendas, preencha o vazio com outras mãos, também vazias – quiçá de companhia, dignidade ou afecto. Porém, se em nós houver coração para partilhar o ouro que nos resta e em tempos de crise tanta falta nos faz, muito além da solidariedade, antes de partirmos ousemos deixar nessas mesmas mãos a possibilidade de outros poderem fazer, também a sua viagem de refúgio em direcção à digna sobrevivência.

           

Simão daniel

(aluno do Mestrado em Ciência das Religiões

publicado por Re-ligare às 12:13
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