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Domingo, 20 de Julho de 2008
Ano paulino, ano de convocatórias

                 

                    
1. Num momento em que muitos têm a sensação de que a Igreja pensa que avança, recuando, a promessa de um ano inteiro dedicado à personalidade e obra de S. Paulo, só por si, não é boa nem má: tanto pode servir para nos confrontarmos com reformas inadiáveis, como para saturar o mercado com a reedição de propostas gastas que já não levam a lado nenhum.

Para já, importa não desligar o Ano Paulino da vontade manifestada por Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, de convocar a arte contemporânea, que anda longe dos grandes temas, símbolos e narrativas, para exprimir a profundidade da fé cristã. Para esse efeito, pretende chamar cinco ou seis grandes artistas que incarnem, de forma exemplar, esse desígnio. Na arquitectura, na construção de templos, o diálogo já começou. Refere o arquitecto português, Siza Vieira, o japonês Tadao Ando, o italiano Renzo Piano, o suíço Máario Botta, o norte-americano Richard Meier, judeu que construiu a bela igreja do jubileu, em Roma. Esse diálogo deve continuar também com a arte e a música contemporâneas, para que se abandone o divórcio que há entre arte, cultura e a expressão religiosa, fechada em si mesma. Este projecto não se destina a aumentar o chamado
património cultural da Igreja, mas a superar a situação actual, de desleixo e de mediocridade, que impede a irrupção criadora do Espírito.

Essa abertura estética não deve servir para esquecer as dificuldades criadas, aos católicos, em nome de uma moral convencional. Anselmo Borges foi muito oportuno ao apresentar as “Conversas Nocturnas em Jerusalém”, entre o padre G. Sporschill e o cardeal Carlo Martini, antigo arcebispo de Milão (DN, 20/06/2008). Reflectem preocupações de ordem ética, sacramental e disciplinar, internas à Igreja, nas quais muitos se reconhecem e outros tomarão como uma desgraça que nem a idade pode desculpar, esquecendo-se de que o cardeal não é mais idoso do que Bento XVI. É possível que alguns lamentem que Carlo Martini não tenha lutado por essas perspectivas, quando era bispo efectivo de uma das maiores dioceses do mundo. E, quando sugeriu a necessidade de um concílio para debater algumas destas questões, foi pena que não tivesse encontrado aliados para essa urgência. No entanto, mais vale que o tenha feito agora do que em memórias póstumas.

2. O cardeal Martini retirou-se para Jerusalém: “Jerusalém é a minha pátria. Antes da pátria eterna”. S. Paulo perdeu essa devoção numa viagem sem regresso que, segundo os Actos dos Apóstolos, mudou o rumo da sua vida: “respirando ainda ameaças e morticínios contra os discípulos do Senhor, foi procurar o Sumo Sacerdote e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, se encontrasse alguns adeptos do Caminho, homens ou mulheres, ele os trouxesse agrilhoados para Jerusalém” (Act 9, 1-2). Nessa viagem, não prendeu ninguém. Foi ele o libertado da ideologia política e religiosa que
matava os profetas.

A continuação desta passagem dos Actos descreve a conversão de Paulo. Não resultou de uma crise de identidade religiosa: “circuncidado ao oitavo dia, sou da raça de Israel, da tribo de Benjamim, um hebreu descendente de hebreus; no que toca à Lei, fui fariseu; no que toca ao zelo, fui perseguidor da Igreja; no que toca à justiça – a que se procura na Lei – irrepreensível. Mas, tudo quanto para mim era ganho, isso mesmo considerei perda por causa de Cristo. Sim, considero que tudo isso foi mesmo uma perda, por causa da maravilha que é o conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor: por causa dele, tudo perdi e considero esterco a fim de ganhar a Cristo e nele ser achado, não com a minha própria justiça, a que vem da Lei, mas com a que vem pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus e que se apoia na fé. Assim posso conhecê-lo a Ele, na força da sua ressurreição e na comunhão com os seus sofrimentos, conformando-me com Ele na morte, para ver se atinjo a ressurreição de entre os mortos” (1).

3. No ardor das polémicas a que o obrigaram, Paulo moveu-se no teclado da sua cultura greco-romana e no da sua esmerada formação rabínica. Ao tentar exprimir o terremoto que abalou todas as suas seguranças, até parece querer dinamitar a razão e a religião: “Os judeus pedem sinais e os gregos andam à busca da sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado que, para os judeus, é escândalo, para os gentios, é loucura, mas, para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo poder de Deus e sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1, 22-25).

Essas sabedorias, ao pretenderem ser a medida da razão e essas religiões, apresentando-se como os únicos caminhos de Deus, criavam a ilusão de uma máquina que controlava o presente e o futuro. Em Damasco, Paulo encontrou-se com o absolutamente imprevisível. Dir-se-á que as suas convicções, acerca da morte/ressurreição, exigem um salto abissal, sem rede. Não me admira que muitos se resignem a um destino de estrume.

(1) Carta aos Filipenses 3, 2-11; cf. Act 9; 22; 26; Gal 1, 11ss e 2; 1Cor
15, 8-11; 2Cor 10 - 12.


Frei Bento Domingues

(1º Director da Lic. em Ciência das Religiões)

 

 

artigo publicado no jornal Público de 6 de Julho.

publicado por Re-ligare às 17:22
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