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Segunda-feira, 6 de Abril de 2009
PARA QUE A SEMANA SEJA SANTA


1.Tornou-se bastante habitual, nesta época litúrgica, receber, dos grandes meios de comunicação, descobertas sensacionais, tentando documentar as pretensas mentiras que
estariam na base do cristianismo.

Este ano ainda não dei por nada de semelhante. O bicentenário do nascimento de Darwin e as atitudes das igrejas perante a evolução e a propaganda anti-teísta bastam para entreter as conversas entre religião e ciência. Por outro lado, parece que já temos um messias com a solução para a crise mundial, produto essencialmente norte-americano bem exportado.

Nada disto impede, porém, que os investigadores sérios das origens do cristianismo e dos textos do Novo Testamento - a investigação já passou por diversas fases - continuem a procurar o Jesus histórico, o ambiente religioso e cultural em que viveu e a história da primeira expansão do movimento cristão, no mundo judaico e no mundo pagão. Multiplicaram-se, entretanto, as imagens acerca de Jesus de Nazaré, procurando cada um destacar aquela que julga ser a dominante: mestre espiritual, profeta escatológico, profeta carismático, reformador social, guerrilheiro, revolucionário político, taumaturgo e exorcista, mago, carismático itinerante, judeu marginal, etc.

Para tentar chegar a um consenso, o Jesus Seminar, fundado, em 1985, pelo falecido Robert Funk e John Dominic Crossan, patrocinado por Westar Institute de Sonoma (Califórnia), publicou, depois de vários estudo e debates, Os Cinco Evangelhos - incluem o de Tomé - a quatro cores que indicam o que Jesus certamente disse (vermelho), o que Jesus provavelmente disse (lilás), o que Jesus provavelmente não disse (cinzento), o que Jesus sem dúvida alguma não disse (preto) (1).

Não se deve concluir que se trata de um empreendimento insignificante e votado ao fracasso. Tudo o que for alcançado será sempre ganho - embora provisório - para a ciência e não atrapalha a fé cristã que não é só um fazer crer o mistério insondável de Cristo - mistério do mundo - mas, sobretudo, um "fazer-fazer", sem dúvida, o que se torna mais decisivo.

2. Albert Schweitzer (1875-1965), um alsaciano famoso, teólogo, filósofo, músico e um dos melhores intérpretes de Bach, convidado aos 24 anos para professor na Universidade de Estrasburgo, disse adeus às suas investigações sobre o Jesus histórico - um marco importante no começo do século XX (2) - e foi doutorar-se em medicina. Que terá acontecido para esta viragem, para o encontro de Cristo na história dos que sofrem?

Numa manhã de Pentecostes, A. Schweitzer foi acordado pelo toque dos sinos e, como escreveu: "Imóvel, escutei aqueles sons juntamente com a voz da minha felicidade íntima. Os meus sonhos mais radiosos tinham-se concretizado. A vida abria-se maravilhosa diante de mim. Mas, de repente, o meu pensamento voltou-se para uma multidão de homens, homens sem conta que nada possuíam. Vieram-me à mente as palavras de Jorge Nitschelm: "Se em minha casa houvesse a fartura que há na tua.", e as palavras do meu pai diante da estátua do negro: "a gente mais pobre e miserável do mundo.". Dentro de mim ressoavam insistentes as palavras do Evangelho: "Àquele que muito recebeu muito será pedido. Recebestes de graça, pois dai de graça. Pregai a palavra. Curai os enfermos.". Naquela manhã Albert Schweitzer, com calma e lucidez, tomou uma decisão: continuaria a dedicar-se à ciência por mais seis anos. Depois, deixaria tudo e iria para o país considerado, na altura, o mais miserável a fim de dedicar a vida aos seus irmãos mais esquecidos. Partiu para África (Gabão), como médico, fundou um hospital, onde tratava mais de 40 doentes por dia e, paralelamente ao serviço médico, pregava o Evangelho numa linguagem que despertava para o essencial e acessível a todos: agir em benefício do próximo (3). Este Prémio Nobel da Paz, mundialmente reconhecido com numerosas distinções honorárias, casado com Hélène e pai de 5 filhos, trabalhou até à morte, a 4 de Setembro 1965. Tinha 90 anos. Os seus restos mortais ficaram em Lambaréné, ao lado dos restos mortais da sua esposa, falecida em 1957 que, desde o começo do namoro, abraçou os sonhos de Albert.

3. Que haverá de comum entre o Mestre, morto como um criminoso às portas de Jerusalém - teria uns 35 anos - e este discípulo, pastor protestante, que morre, no cume da glória, aos 90 anos no Gabão? O essencial: ganhar a vida, gastando-a por aqueles que nada podem fazer por nós. A. Schweitzer, um grande intelectual e um artista consagrado, percebeu que o decisivo não é fazer uma carreira científica com a história de Jesus - embora isso possa ser culturalmente muito importante -, mas ajudar a fazer história de libertação a quem a história foi roubada antes de tempo. Só nesse horizonte é que é possível tornar santa a Semana Santa.

 
(1)  Robert W. Funk, Roy W. Hoover and the Jesus Seminar, The Five Gospels, The Search for the Authentic Words of Jesus, New York, Macmillan, 1993.

(2)  Albert Schweitzer, A Busca do Jesus histórico, São Paulo, Editora Cristã Novo Século, 2003 (orig.1906).

(3)  Cf. Terésio Bosco, Alberto Schweitzer, Porto, Edições Salesianas, 1990.

Frei Bento Domingues, o.p.

(1º director da lic. em Ciência das Religiões)

publicado por Re-ligare às 00:34
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