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Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008
ECONOMIA E HUMANISMO

 

1.Será verdade que a história humana só avança a partir do que nela existe de pior? Em 1784, Immanuel Kant, ao propor a ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita, verificou algo paradoxal. Quando, na grande cena do mundo, se olha para os factos e gestos dos homens – ao lado de algumas manifestações de sabedoria, aqui e ali, isto é, em casos particulares –, no conjunto e em última análise, não vê-se apenas um tecido de loucura, de vaidade infantil, muitas vezes até de maldade e de sede de destruição pueris. Fica-se sem saber que conceito se deve fazer da nossa espécie tão convencida da sua superioridade.
Este filósofo pensa, no entanto, descobrir, na marcha absurda das coisas humanas, um desígnio de natureza que usa o próprio antagonismo entre os homens para os conduzir à sociedade através da mediação do direito. Pelos conflitos e guerras, o homem é conduzido a uma sociedade razoável, isto é, regida pelo direito. Supõe que o mal e o negativo, na história, trabalham para o progresso da consciência ética e política.
Talvez seja uma consoladora visão da história do Homem que levou milhões de anos para conseguir ser apenas um lagarto, podre de indiferença, como diria Stig Dagerman. Se as pessoas valem por si, não podem ser o preço a pagar pelo avanço de uma história que as elimina, quando eram elas que desejavam, na vida, encontrar formas de vencer a morte.
2. A ideia de tirar bem do mal é persistente. Pode ir até ao escândalo e ao ridículo. Quando os meios de comunicação social parecem privilegiar tudo o que é negativo, há logo quem diga: sem noticiários carregados de desgraças, o que seria dessas empresas que dão trabalho a tanta gente? O mal de uns é o bem de outros. Por isso, quando não abundam os incêndios, têm sempre ao dispor o recurso aos espectaculares acidentes rodoviários. Neste Verão, não tinham mãos a medir com roubos e assaltos em série. Ao colocarem o país em pânico, abriam, também, uma mina para as empresas de segurança e para a sua lógica.
As notícias internacionais servem-nos todos os males do mundo, naturais ou provocados, mas esses ficam sempre longe. O resultado de falências de bancos e companhias de seguros, nos EUA, acabarão, no entanto, por chegar cá. Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas dos comentadores que julgam que os dirigentes dos EUA têm sempre razão. Até George W. Bush – responsável pela tragédia do Iraque – é louvado pelo seu pragmatismo e pelas palavras de circunstância na ONU. O capitalismo, por mais selvagem que lhe chamem, tem sempre razão, mesmo na loucura, e sabe premiar, com milhões, os gestores da desgraça.
Dir-se-á que não estou a ter em conta a lógica e os sete fôlegos do capitalismo. Antes de juízos morais, é preciso compreender o seu funcionamento e as suas regras. Seja.
3. Em 1989, Hugues Puel, professor de economia, na Universidade de Lyon, e especialista em questões de ética económica e de negócios, foi convidado a participar num seminário dedicado ao tema, «A finança sob o olhar da ética». A questão levantada, aos grandes patrões do capitalismo europeu, era a seguinte: «Até que ponto a procura do lucro, a curto prazo, poderá sobrepor-se a qualquer outra consideração?» Depois de algumas intervenções, o assunto abordado passou a ser este: «Que fazer para não se deixar apanhar?»
Hugues Puel, desconcertado, quando chegou a sua vez, disse apenas: «Mas os chefes de empresa também têm uma consciência». Essa observação gelou a assistência. No dia seguinte, o jornalista do Le Monde, ao narrar o que acontecera, notou o silêncio que seguiu essas palavras e comentou: «Um anjo passa» (1).
Quando só o lucro interessa, a consciência humana tem de ficar fora dos negócios para não ser visitada por nenhum anjo inquietante.
Foi isso que o dominicano Joseph Lebret e companheiros perceberam ao fundar, em 1941, a associação Économie et Humanisme. Como o nome indica, procuravam promover uma economia ao serviço do ser humano, numa adaptação contínua ao contexto social. Essa associação conservou uma vitalidade que espanta muitos observadores da sociedade e do mundo económico. A sua história – na Europa e sobretudo no Terceiro Mundo –, durante a vida do Padre Lebret, um grande profeta do século XX, está rigorosamente feita e publicada (2). Économie et Humanisme é um movimento de intervenção, no campo económico e social, com uma forte dimensão espiritual. O Padre Lebret teve um papel determinante na elaboração do documento do Vaticano II, A Igreja no mundo contemporâneo. O Papa Paulo VI encomendou-lhe a preparação da encíclica Populorum Progressio que apareceu, em 1967, um ano depois da sua morte.
A humanidade nunca foi tão rica e tão pobre ao mesmo tempo. A pergunta que importa fazer tem dois mil anos: o ser humano é para a economia ou a economia para o ser humano?
 
 
(1) Hugues Puel, Économie et Humanisme dans le mouvement de la modernité, Paris, Cerf, 2004, p. 152.
(2) Denis Pelletier, Économie et Humanisme. De l’utopie communautaire au combat pour le Tiers-monde. 1941-1966, Paris, Cerf, 1996.
 
  

Frei Bento Domingues, O.P.

(1º director da LIc. em Ciência das Religiões)

 

 

publicado por Re-ligare às 11:00
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Terça-feira, 23 de Setembro de 2008
A história como argumento apologético

Quando os primeiros cristãos se encontraram diante da tarefa de justificar a sua crença nas boas novas de Jesus Cristo perante os gentios gregos e romanos, começaram a fazê-lo através de um exercício de afirmação das verdades ensinadas pelo Messias, pela esperança em suas promessas e, principalmente, por sua convicção naqueles eventos que haviam sucedido pouco tempo antes, como a morte e a ressurreição do ungido de Deus.

 
Não havia uma preocupação rigorosa com a forma como era transmitida essa verdade, pois a perplexidade de constatar os fatos e, especificamente, de confrontar a coragem e o destemor com que a comunidade cristã enfrentava leões tomando o lugar reservado aos
gladiadores, cabia aos cidadãos greco-romanos.
 
Essa prática de sobrevivência dos primeiros séculos ganhou argumentos mais sistematizados com o passar dos anos a medida que a própria Igreja foi organizando os seus dogmas, as suas doutrinas e definindo o seu credo, quase sempre como resultado de defesas contra heresias que fermentavam no seio da congregação ou contra mestres oriundos da academia filosófica, que exigiam construções racionais que pudessem ser aferidas por suas técnicas de argüição. Esse mesmo artifício seria utilizado pela ciência, quando esta passou a estabelecer métodos mais rigorosos para a obtenção do conhecimento. Desse modo, a fé, que outrora esteve sujeita a razão, agora deveria caber numa pipeta de laboratório e ser o resultado de experiências práticas comprovadas pela observação empírica.
 
Isto nos remete a um problema primário da apologética cristã. Consideramos a definição da "ciência" apologética como uma disciplina que se esforça por apresentar a defesa da fé cristã. A controvérsia se dá no momento que teremos de realizar essa tarefa por outros meios distintos da fé. Devemos provar a fé, não obstante ser ela insuficiente para estabelecer princípios apologéticos. Em algum momento da história a teologia retrocedeu a ponto de que hoje é necessário argumentar racionalmente e de acordo com métodos de observação emprestados de outras ciências para seguirmos a recomendação do apóstolo Pedro de santificar a Cristo, como Senhor em nosso coração, e estar sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que pedir a razão da esperança que há em nós.
 
Em que ocasião a teologia deixou de respaldar através da própria palavra revelada as suas convicções não será o objeto deste texto, mas certamente estaremos lançando novamente estacas bem firmadas nas cartas deixadas por aqueles que conviveram com Cristo e foram seus interlocutores, conforme argumenta o apóstolo: "porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas, mas nós mesmos vimos a sua majestade" (2 Pe 1.16). "Porque nós não somos, como muitos, falsificadores da palavra de Deus; antes, falamos de Cristo com sinceridade, como de Deus na presença de Deus" (2 Co 2.17).
 
É imprescindível neste momento estabelecer a fé na palavra revelada como princípio vital para o exercício da apologética cristã, como elemento indispensável sem o qual não se pode fundamentar defesa nenhuma, tal como a razão é para os filósofos ou a observação é para os cientistas, caso contrário estaremos desvalorizando aquilo que se constitui na maior riqueza para a nossa prática. Se para filosofar aceitamos a dialética e até a maiêutica e quando nos confrontamos com as ciências sociais damos prioridade ao "método", a teologia exige que aquele que se debruça no leito da apologia cristã o faça através da fé. Que aceite como verdadeira a palavra revelada por meio dos profetas inspirados por Deus.
 
Fundado este preceito, podemos seguir rumo ao segundo princípio da prática apologética: a comprovação histórica. O testemunho de Deus foi feito através dos tempos e sabemos que os escritos sagrados foram redigidos em diferentes épocas. No entanto, longe de depararmos com um problema, essa providência divina é recurso muito útil à medida que sabemos que o Senhor Deus não faz coisa alguma sem antes ter revelado o seu segredo aos profetas (Am 3.7). Por isso, devemos estar bem atentos à palavra dos profetas, como uma luz que alumia em lugar escuro, já que eles anunciaram acontecimentos futuros, muito dos quais se cumpriram literalmente e hoje constitui parte da história, uma história que foi revelada com antecedência.
 
Poderíamos citar inúmeros exemplos da história de Israel e das nações vizinhas para ilustração, passagens proféticas como no caso da ascensão e queda da Babilônia, predita pelos profetas Isaías, Jeremias e Ezequiel. A proeminência dos impérios antigos medo, persa, grego e, finalmente, romano, antecipada por Daniel quando estava na Babilônia. Todos esses eventos registrados por historiadores e comprovadamente relatados com antecedência. A data da tomada da Babilônia pelo monarca persa Ciro, por exemplo, predita com pelo menos 70 anos de antecedência, é utilizada como referência para determinar a cronologia de eventos bíblicos, como a monarquia de Israel.
 
Não obstante, o mais contundente e de maior relevância, sem dúvida, foi a passagem de Jesus Cristo pela terra e sua convivência com os homens, fato este capaz de dividir o calendário da humanidade em antes ou depois dele. São várias as referências proféticas relativas ao seu nascimento, a sua vida, a sua missão e a sua morte. Do cumprimento da profecia ele mesmo atestou numa ocasião em que esteve na sinagoga de Nazaré, quando lhe foi dado o livro do profeta Isaías para ler e concluiu dizendo: "Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos" (Lc 4.21), referindo-se à unção que recebeu para evangelizar os pobres, curar os quebrantados do coração e apregoar liberdade aos cativos e oprimidos.
 
Dessa maneira, cremos que a genuína apologia cristã pode prescindir de elementos alheios a ela e restringir as "portas do palácio do conhecimento", como disse Champlin - para quem a verdade bíblica deve ser testada e avaliada, a uma única porta que é atravessada pela fé baseada na revelação. O teólogo Karl Barth concorda quando afirma que "a teologia precisa renunciar à sua apologética ou às garantias externas de sua posição dentre as ciências, pois sempre subsistirá no mais firme dos alicerces quando simplesmente agir de acordo com a lei de sua própria natureza", isto é, a fé no agir do Espírito Santo.
 
O apóstolo Paulo, em sua primeira carta aos Coríntios, aborda várias vezes essa questão, reiterando que a sua pregação não consistiu em "sublimidade” de palavras" ou em "palavras persuasivas de sabedoria “humana" mas que foi realizada com palavras que o Espírito Santo ensinou para que a cruz de Cristo não se fizesse vã.
 
Sendo assim, nossa tarefa como defensor da fé será reconstruir o caminho que conduz a essa porta, tornando conhecidas as obras de Deus, anunciando suas maravilhas, suas promessas e a revelação profética contida na Escritura. Tanto a profecia cumprida quanto aquela que ainda não se cumpriu e que poderá vir a ser comprovada. Quando ao seu cumprimento, no dizer do profeta Isaías, temos a garantia de que "o zelo do Senhor dos Exércitos fará isto" acontecer.
 
Eduardo Vasconcellos é bacharel em Teologia e mestrando em Ciência das
Religiões FATIN/Lusófona
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Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008
O SERMÃO DO CÓNEGO LAICO E REPUBLICANO

 

1.Os dias que o romano pontífice passou em França serviram, além do mais, para mudar o olhar de muitos franceses sobre o Papa e para alterar a ideia de Bento XVI sobre o papel da Igreja na sociedade francesa. Reunir 260 mil pessoas em Lourdes e cerca do mesmo número em Paris revela capacidade de convocação. Tornou-se evidente, para a opinião pública, que o catolicismo é uma dimensão bem presente na paisagem social e religiosa de França.
O Papa teve várias intervenções, mas o grande sermão foi proferido pelo presidente do Estado mais laico da Europa, Nicolas Sarkozy. Uma surpresa oportunista? Talvez nem tanto. Já quando era o encarregado dos cultos, no governo anterior, deu a entender que a prática da laicidade não podia evitar novas interpretações e evoluções, tendo em conta as mudanças da sociedade francesa.
Como presidente da República, foi-lhe conferido, no dia 20 de Dezembro de 2007, o estranho título de cónego honorário do cabido da basílica de S. João de Latrão, sede do Papa, Patriarca do Ocidente, bispo de Roma. Henrique IV, rei de França, doou, em 1604, uma abadia francesa a esse cabido. Em reconhecimento, este atribuiu-lhe, e aos seus sucessores, o título de cónego honorário. Entre os últimos presidentes franceses, De Gaulle e Valéry Giscard d’Estaing foram a Roma receber esse título. Pompidou e Mitterrand abstiveram-se. Nicolas Sarkozy justificou a decisão de o acolher: «Ao vir esta noite a S. João de Latrão e aceitando o título de cónego honorário desta basílica, assumo plenamente, na minha pessoa, o passado da França e o laço particular que, desde há muito tempo, une a nossa nação à Igreja».
2. Podia ter ficado por aqui que já não era pouco, mas foi mais longe. Sabendo que já ninguém põe em causa a separação da Igreja e do Estado, que a tradição laica perdeu a sua irritante agressividade, que a tradição católica já não exerce uma posição dominante ou hegemónica, como no passado, aproveitou para enunciar e desenvolver, com brilho, o conceito de «laicidade positiva», que leva o Estado a reconhecer e a valorizar o papel das religiões na sociedade, destacando as raízes essencialmente cristãs da França. País que, entretanto, conta com uma presença significativa do Islão, com diversas formas de descrença, de agnosticismo ou indiferença religiosa que também fazem parte da cultura ambiente, sem esquecer a sedução que exercem certas espiritualidades mais ou menos esotéricas ou místicas. Ao reconhecer aquilo que ele chama «aspiração espiritual», a necessidade de espiritualidade numa sociedade bastante secularizada, afirma, também, que a França precisa de católicos convictos que não receiem afirmar-se como tais e mostrar aquilo em que acreditam.
Em suma, o Estado deve garantir o exercício de liberdade de consciência a todos os cidadãos, sejam eles laicos, agnósticos ou crentes, mas é preciso compreender que as religiões nasceram para satisfazer necessidades que o Estado não pode desconhecer nem satisfazer. Importa, no entanto, que as religiões e as Igrejas sejam reconhecidas como referências de vida e não como forças políticas ou grupos de pressão, suas tentações permanentes.
3. Com este cónego, presidente da República, o Papa não tinha nada a temer da laicidade «à francesa». Pelo contrário. A «laicidade positiva» já tinha sido proclamada em Roma, na sede da cristandade, por Sarkozy que, agora, recebia Bento XVI com palavras que ninguém podia contestar: «na República laica que é a França, todos vos acolhem com respeito enquanto chefe de uma família espiritual».
Assumiu, do pensamento do Papa, não só a defesa da compatibilidade entre fé e razão, como o reconhecimento de que a especificidade e a fecundidade do cristianismo não são dissociáveis do seu encontro com os fundamentos do pensamento grego. Também a democracia é mais do que a adição aritmética dos votos e dos movimentos passionais dos indivíduos. Precisa das luzes da razão, de argumentar, de procurar honestamente o que é bom e necessário, de respeitar os princípios essenciais reconhecidos por aquilo que se chama o entendimento comum. Não receou acrescentar: também é legítimo para a democracia e é uma forma de respeitar a laicidade dialogar com as religiões. Estas, e nomeadamente a cristã com a qual a França partilha uma longa história, são patrimónios vivos de reflexão e de pensamento, não só sobre Deus, mas também sobre o ser humano, sobre a sociedade e mesmo sobre as preocupações, hoje centrais, como é a natureza e a defesa do meio ambiente. Privar-se desse património, seria uma loucura e um pecado contra a cultura e contra o pensamento. É por isso que apela, novamente, a uma laicidade positiva, que respeita, que reúne, que dialoga e não a uma laicidade que exclui e denuncia. A laicidade positiva oferece às consciências, para lá das crenças e dos ritos, a partilha de uma busca de sentido a dar às nossas existências.
A posição de N. Sarkozy é discutível. Ainda bem. Já se perdeu demasiado tempo a repetir dogmas laicos e eclesiásticos.

    

Frei Bento Domingues, O.P.

(1º director da LIc. em Ciência das Religiões)

                  

artigo do Público, 22 de Setembro de 2008.

publicado por Re-ligare às 10:27
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Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008
METAMORFOSES DAS MISSÕES CATÓLICAS


1.    Com qualidades, estilos e horizontes diferentes, publicam-se, em Portugal, várias revistas missionárias. Hoje, nenhuma delas alimenta qualquer nostalgia do passado que ligava a dilatação da fé à do império.

O Padroado Português resultou de sucessivas concessões e privilégios outorgados pelos papas aos reis de Portugal no decorrer da epopeia marítima. Foi instituído por uma Bula do Papa Martinho V, em 1418, e aguentou-se até finais do século XX.

Depois da anexação de Goa, pela União Indiana em 1961, da revolução de 25 de Abril de 1974, da perda das colónias, da ocupação indonésia de Timor, da passagem de Macau para a China, em 1999, o Padroado morreu e não ressuscitará.

2.    Com a independência de Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, muitos missionários regressaram à pátria de origem. Algumas igrejas africanas já tinham proposto, nos anos 60, uma “moratória” às actividades missionárias estrangeiras. Entretanto, muita coisa passou debaixo das pontes da descolonização. Tudo foi reavaliado e a “evangelização inculturada”, em clima de diálogo intercultural e inter-religioso, tornou-se a temática dominante. A convocatória para a urgência de uma “Nova Evangelização” da Europa parecia levantar a questão: porque partir para longe, quando é o nosso continente pós-cristão, esquecido das suas raízes, que se tornou uma áspera “terra de missão”?

Se partir era fugir, ficar seria trair um cristianismo sem fronteiras reivindicado, contra ventos e marés, por S. Paulo há dois mil anos. O horizonte universal, no apreço pelas diferenças de povos e culturas, tornou-se o sentido irrenunciável da evangelização.

3.    A revista “Além-Mar” dos missionários combonianos optou, de forma instruída, por reconfigurar, número após número, a superação dessas aparentes incompatibilidades. Só uma Igreja que se entende a si mesma a partir da missão será evangelizadora, esteja onde estiver. O Bispo António Couto, entrevistado por “Além-Mar”, observa que, a nível interno e no que à actividade missionária diz respeito, a Igreja portuguesa tem estado e permanece bastante sossegada, no mau sentido, limitando os seus esforços a uma pastoral de manutenção, alimentando apenas e cada vez com maiores dificuldades, os ministérios tradicionais. Sustenta que é absolutamente imperioso e urgente que a Igreja portuguesa se empenhe numa vastíssima campanha de verdadeira formação de evangelizadores, para que se possa levar o Evangelho a todas as camadas da população portuguesa. Não podemos mais ficar tranquilamente dentro das igrejas, sacristias e salões paroquiais, de braços cruzados, à espera que as pessoas venham ter connosco. Somos nós que devemos ir ao encontro das pessoas.

Neste número de Setembro, a revista continua a sair das nossas fronteiras e apresenta um dossier especial sobre a Ásia. São vinte e sete páginas de estatísticas e informações de fundo acerca de 46 países do maior e mais habitado continente do planeta, dotado de pujantes tradições culturais, religiosas e éticas servidas por exigentes disciplinas de vida.

Não são poucos os observadores convencidos de que o século XXI vai ser o século da Ásia, carregada de promessas, contrastes e ameaças.

No mês passado, a capital da China não foi apenas o centro do mundo desportivo, onde os atletas asiáticos brilharam e os chineses conquistaram o maior número de medalhas de ouro. As celebrações que abriram e encerraram os Jogos Olímpicos encheram de espanto os olhos de todos os telespectadores. Já no século XVI, um dominicano português, Frei Gaspar da Cruz – que escreveu em 1569 o primeiro livro europeu, muito plagiado, sobre as “Coisas da China” – revelou os seus espantos à Europa do seu tempo, destacando também as dificuldades da evangelização desse mundo (1).

Ao fim de três anos de pontificado, a visão de Bento XVI acerca do papel da Igreja na Ásia, e nomeadamente na China, abordada na citada revista, está semeada de perplexidades. Neste sentido, merecem leitura atenta as reflexões sobre a Carta de Bento XVI à Igreja na China, de Sávio Hon Tai-Fai, SDB, publicadas no “L’Osservatore Romano” (30/08/2008). Vê com olhos chineses o que escapa aos olhos europeus. Com olhos europeus, Anselmo Borges, no artigo “Os Jogos Olímpicos: liberdade e religião” (DN, 30/08/2008), levanta
questões incontornáveis para todos.

Não basta desejar que o continente asiático, e nomeadamente a China, se abra ao Evangelho. Importa que as testemunhas do Evangelho se interroguem acerca das dificuldades que têm em compreender e assimilar as identidades culturais, religiosas e políticas desse continente de imensos contrastes.

 
_________________________________
 
(1)  Frei Gaspar da Cruz, Tratado das coisas da China (Évora 1569-1570). Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Cotovia, Lisboa.

 

 

Frei Bento Domingues, O.P.

1º director da Licenciatura em Ciência das Religiões

 

Artigo do Público de 14 de Setembr de 2008.

publicado por Re-ligare às 00:59
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Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008
O Mestre JESUS

 

A braços com o estudo de uma cronologia acerca da vida e obra de Jesus Cristo, amavelmente proposto como um projecto a desenvolver neste último ano da minha licenciatura, vivo um tempo de profunda admiração e digo, amor, pela pessoa que é o alvo de meu estudo.
Jesus não foi só desprezado, escarnecido, mal interpretado pelos seus inimigos que de facto, não o conheciam, mas apaixonou multidões da sua época; daqueles que se cruzavam com ele, viveram e aprenderam.
A sua generosidade e abnegação fora do comum, eram quase impossíveis de deixar alguém indiferente e de facto, ainda hoje o fazem.
Ao longo da história, quer a do mundo em que caminhou, quer desde esse tempo até hoje, meditar acerca das suas acções e motivações que vêm descritas nas escrituras é um dos melhores desafios para qualquer pessoa – é o melhor investimento em tempo e sabedoria que qualquer pessoa pode encetar. Sem dúvida, este foi o Mestre mais sábio de todos os tempos e as suas palavras e conhecimento ainda hoje ecoam e dão realmente fruto na vida de qualquer indivíduo de qualquer sociedade e origem que as aceite como orientação.
Um sábio da sinagoga, de nome Nicodemus, dirigiu-se a Jesus de noite (talvez para não se expor a mais ninguém, para que ninguém o visse falar com aquele que estava a causar alguma polémica no seu meio) e com uma atitude humilde e disposto a conhecê-lo e às suas motivações, reconheceu que Jesus deveria ter realmente uma origem incomum - uma origem divina.
No evangelho de João no capítulo 3; desde o versículo 2 até ao versículo 4, lemos que disse a Jesus quando se dirigiu a ele:” Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele”. Jesus disse-lhe que, para ver realmente o Reino de Deus, para entender as coisas de Deus, que era o que realmente aquele homem procurava, para o qual estudava como os outros sábios da sinagoga - ele teria que nascer de novo.
Para Nicodemus isto gerou alguma confusão e por isso ele perguntou a Jesus: “Como pode um homem sendo velho, voltar a nascer de novo do ventre da sua mãe?”
Na verdade aquele homem não podia valer-se do seu conhecimento adquirido, conhecimento apenas fruto da experiência humana, mas era necessário mais do que algum ser humano pode adquirir apenas por esforço próprio, era necessário realmente uma experiência com o próprio Deus, para o poder conhecer.
Conhecimento do próprio Deus que realmente só Ele mesmo pode dar, por isso ele teria de nascer outra vez, mas desta vez não da “água”, não do ventre materno, mas mais para além disso, mais do que aquilo pelo qual Nicodemus já tinha passado como recém nascido
– Nicodemus teria de nascer espiritualmente.
É muito provável que ele de facto tenha acreditado nas palavras de Jesus e assim nascido de novo, pois nos últimos capítulos escritos por João no seu evangelho, lemos que após a morte de Jesus, Nicodemus e José da Arimatéia foram tratar do embalsamento do seu corpo antes do sepultamento (uma prática comum com o corpo dos falecidos na época, embrulhados cuidadosamente em faixas de linho e com bálsamos muito preciosos)
Jesus deixa bem claro (registado por Mateus no seu evangelho, no capítulo 1; versículos 2, 3 e 4) que se alguém quer ver, entrar no Reino de Deus, conhecer efectivamente o seu reinado, ser parte dele, conhecer verdadeiramente (mais do que conhecimento mental, mas entender) terá de se tornar como uma criança.
“ Jesus, chamando uma criança, colocou-a no meio deles e disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. Portanto, aquele que se tornar humilde como esta criança, esse é o maior no reino dos céus.”
A humildade e um coração disposto a acreditar sem duvidar em Jesus como Deus e nas suas palavras é a porta a abrir-se para um novo nascimento
Sem receios como Nicodemus.
Não é nascer outra vez como já uma vez aconteceu; comigo há 35 anos, do ventre da minha mãe - desta vez agora, é nascer do espírito.
O livro de Provérbios escrito por um homem que foi rei, (Salomão) possuidor de uma imensa fortuna, mas que passou também por uma vida decaída e de insatisfação, enfim que passou por muita, muita experiência e conhecimento intelectual das coisas, regista no início do livro de Provérbios o seguinte:
“ O Temor do Senhor é o princípio do conhecimento”
Temor não é medo, mas sim confiança.
 
Florbela Nunes
Aluna do 3º ano da Licenciatura de Ciência das Religiões
publicado por Re-ligare às 21:55
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Terça-feira, 2 de Setembro de 2008
CRISTÃOS AOS LEÕES

 

 

Hoje vi um rapaz de aspecto peculiar, desses vestidos de negro e de rosto perfurado de piercings, envergando ousadamente uma Tshirt com uma inscrição curiosa. Dizia: «Christians to the lions» que traduzido é «Cristãos aos leões»!

Fiquei assustado! Deve haver alguma razão que justifique tanto ódio, raiva e rancor contra os cristãos…

A liberdade de expressão é um património inviolável do qual não podemos nem devemos abdicar. Daí eu concordar que ele tenha o direito de dizer a toda a gente que os cristãos devem, de novo, ser lançados às feras, como se fazia há dois mil anos.


A ironia de tudo isto reside no facto de ser exactamente esta cultura e sociedade cristã – que ele parece odiar – que permite ao nosso jovem dizer tudo o que ele quiser, mesmo contra os cristãos, sem ter medo de ser punido!!!

Depois imaginei quão diferente seria a vida desse mesmo jovenzinho se lhe desse na real gana ir para a Albânia com uma Tshirt em que envergasse uma inscrição do género «Morte aos comunistas». Ou ainda se tivesse a ideia peregrina de ir para Teerão com uma Tshirt que gritasse «Muçulmanos p’ra fogueira»...

 

Questões teológicas e crenças à parte, continuo a crer que o cristianismo, agora recuperado de uma deriva medieval de má memória, continua a ser relevante. Enquanto modelo social, o cristianismo mantém uma cultura de tolerância, de respeito pela diferença e de valorização do outro que importa manter a todo o custo. Mesmo diante de provocações como esta!

 

Luís Seabra Melancia

 

publicado por Re-ligare às 18:11
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