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Quinta-feira, 27 de Novembro de 2008
Pai de todas as Virtudes… (3)

 

 
Objecto de arte nas mãos dos mestres, experiência social fundamental à necessária reestruturação e viabilidade do desenvolvimento da sociedade, do que é estamos a falar quando falamos de perdão?
 
No término desta tripartida reflexão, proponho ao amável leitor um último desafio: uma reflexão pessoal, familiar e comunitária do perdão como fundamento da experiência cristã.
 
Nos dicionários perdoar significa absolver, desculpar ou poupar alguém de uma culpa ou dívida. Porém, a narrativa bíblica faz-nos uma proposta de reflexão além da acção. Confronta-nos com a natureza do perdão: a reconciliação. Voltando ao texto das origens, perdoar foi em primeiro lugar uma decisão de Deus na procura do homem escondido. Uma atitude com o objectivo de restabelecer as relações à condição original. Independentemente das consequências a curto ou longo prazo, perdoar implica reconciliar.
 
Tendo em consideração que o respectivo texto é procedido de um conjunto de sanções divinas, sequelas da desobediência humana deliberada, porque Deus perdoou? Por outras palavras, qual a razão que sustentou a sua decisão em procurar aquele que se escondia? Proponho 7 razões no enquadramento com a restante narrativa bíblica!
 
Porque perdoar reconstrói e (re) une
Enquanto acto de “(re)unir o que se dividiu”, o perdão reconstrói o homem e a Sociedade onde vive. As narrativas bíblicas revelam o perdão como fundamento da união: com Deus (anunciado por Jesus na última ceia) na família (Jacob reconciliou-se com o seu irmão Esáu); na política e defesa nacional (as tribos de Israel reconciliaram-se com a tribo de Judá); na proclamação do Evangelho (reconciliação entre os cristãos de Antioquia e Jerusalém). O Perdão devolve-nos a unidade, e a possibilidade de experimentar a paz que está para além da ausência de conflitos. Perdoar reconcilia e, mediante essa reconciliação, impulsiona a reconstrução do que estava destruído. Na prática do perdão, quantos indivíduos encontrariam a paz de que necessitam? Quantos casamentos seriam salvos? Quantos litígios entre país e filhos seriam resolvidos? Quantos confrontos sociais seriam evitados? Quantos conflitos laborais seriam sanados? Quantos povos reatariam de novo as suas relações?
 
Porque restaura e liberta.
Perdoar significa restaurar e devolver à liberdade, pois, apela não só à restauração dos relacionamentos destruídos mas também à libertação para uma nova oportunidade. Na tradição judaica, o Jubileu – perdão social concedido de 50 em 50 anos (Lv 25) – tinha por objectivo restaurar a ordem primordial: que os homens fossem livres. Assim, as famílias endividadas eram absolvidas do compromisso de servir o credor e eras-lhes concedida liberdade. Liberdade para um novo recomeço e liberdade para reconstruírem a vida como seres livres.
 
Porque dignifica.
Ao perdoar a mulher adúltera (cf. Jo 8, 1-11), Jesus transformou o humilhante julgamento popular num acto de amor e respeito pela dignidade da pessoa perdoada. O perdão transformou a prisioneira numa mulher digna de ser livre. Livre para recomeçar a vida e livre para não ser infiel outra vez, uma vez que o perdão transformou a condenação à morte em vida.
 
Porque é uma oportunidade de reflexão.
O acto de perdoar e sermos perdoados convida-nos a uma reflexão de consciência: a uma avaliação pessoal e social dos nossos comportamentos passados e, consequentemente, ao reconhecimento da importância de relacionamentos saudáveis no nosso dia-a-dia. Uma oportunidade de realizar uma rigorosa avaliação dos nossos valores de Justiça e Misericórdia.
 
Porque purifica a memória.
Ao perdoar reescrevemos uma nova história. A história do conflito dá lugar a história da reconciliação. Assim, na mediada em que a lembrança da reconciliação substitui a lembrança dos conflitos e consequentes divisões, purifica a nossa memória e estabelece um novo futuro. Liberta-nos da prisão do passado e encaminha-nos para um futuro livre.
 
Porque é uma demonstração de amor.
A Bíblia revela-nos a maior e a mais bela história de perdão. De tal modo Deus amou a humanidade de tal forma, enviou o seu Filho para nos perdoar...” (cf. Jo 3,16) Deus Misericordioso perdoando o homem rebelde. Amor divino transformado em favor humano. Porque amou, Jesus perdoou o abandono dos discípulos, o flagelo daqueles que o torturavam, a indiferença de quem assistia ao seu sofrimento.
 
 
Porque é um acto de trnscendência humana.
Somos convidados a perdoar numa medida que supera o perdão humano. Jesus ensinou-nos a perdoarmo-nos, como ele nos perdoou: uma doação que nada exige em troca, um acto gracioso que inclui, também, aquele que não nos pede perdão. Perdoar como Jesus perdoou, torna-nos semelhantes a Ele. A transformação da fragilidade humana em transcendência divina.
 
Existirá algum Imperdoável?
 
Um dia, um Rei chamou os seus devedores e impôs-lhes o pagamento das dívidas. Aqueles que não cumprissem, para além dos bens confiscados, eles e a família seriam também vendidos até liquidar as contas. Um deles, que devia dez mil moedas de ouro, não tendo como pagar, implorou ao Rei que lhe concedesse mais tempo. Sensibilizado com o pedido, o Rei teve compaixão dele e perdoo-lhe a dívida.
 
Saindo dali, este homem procurou um dos seus devedores e persuadiu-o a pagar-lhe a insignificante quantia que ainda lhe devia. Ora, não tendo este como pagar, implorou-lhe também que lhe concedesse mais tempo para saldar a sua conta. Porém, tal pedido não teve resposta e o credor ordenou que ele fosse preso até pagar toda a dívida.
 
Consternados com este acontecimento, alguns amigos do prisioneiro foram contar ao Rei o sucedido. Ora, o Rei mandou chamar o homem a quem tinha perdoado e, confrontou-o com o facto dele, depois de ter sido perdoado pelo Rei de uma tão grande dívida, não ter sido misericordioso para com os seus devedores. Como tal, o Rei retirou-lhe o perdão e ordenou que ele fosse preso até restituir todo o dinheiro. (Cf. Mateus 18: 21-35)
 
Para este Rei é imperdoável não perdoar, sobretudo, quando também já fomos perdoados.
               
Simão Daniel
(aluno do Mestrado em Ciência das Religiões)
               
A partir do quinto parágrafo o texto que vos escrevo fez parte de uma publicação da Sociedade Bíblica no âmbito da Semana de Oração Pela Unidade dos Cristãos (2006), a quem eu agradeço a gentileza em autorizar a sua utilização neste espaço.
publicado por Re-ligare às 16:25
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Segunda-feira, 24 de Novembro de 2008
Palavra de Deus?


1.Em tempos de grande crise económica gerada por métodos de corrupção e de especulação financeira, os temas de vigilância, de rigor nos grandes projectos, de apertada regulamentação da Banca, de cuidada avaliação profissional acompanham os telejornais com cenários de catástrofe global.

Quem procurar alívio e consolação nas igrejas arrisca-se a uma grande decepção. Se não quiser ser vigilante e viver embalado em palavras de “paz e segurança” – como se dizia no Domingo passado –, encontra-se com o inesperado. Sentir-se-á mesmo revoltado com o que vai ouvir da chamada “Palavra do Senhor” ou “Palavra da salvação”.

2. Na liturgia outonal, os cristãos são confrontados com as perturbadoras narrativas do capítulo 25 do Evangelho de S. Mateus.

Na primeira – a do contraste entre “as virgens loucas e as prudentes” – espelha-se um mundo egoísta e sem compaixão. Na segunda – a dos “talentos” – glorifica-se a arte de tornar os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Vem a terceira – a da avaliação final da história humana –, na qual, seria de esperar uma boa saída para um mundo tão cruel. De facto, a justiça parece perfeita. Aos bons, o Filho do Homem dirá: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei como herança o reino que vos está preparado desde a
criação do mundo”. Para os maus, a sentença é outra: “afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o demónio e os seus anjos”. O conjunto deste celebrado capítulo, construído numa sequência de três  narrativas, acaba assim: os maus irão para suplício eterno e os justos para a vida eterna.

A sentença do chamado “juízo final” é baseada no comportamento histórico dos bons e dos maus. E parece sublime. O encontro com Cristo ou a sua rejeição, isto é, o encontro com a salvação ou a perdição, não depende de nenhuma prática religiosa codificada com prémio ou castigo previamente fixado. O juiz deste processo andava clandestino na vida das pessoas: tive fome e deste-me de comer; tive sede e deste-me de beber; era peregrino e me
recolheste; não tinha roupa e me vestiste; estive doente e vieste visitar-me; estava na prisão e foste ver-me.

Os bons, os justos, ficam espantados: Senhor, quando é que te vimos com fome, com sede, peregrino, sem roupa, doente ou na prisão? A resposta é inesperada: “quantas vezes o fizeste a um dos meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizeste”. Em relação aos maus, basta mudar o sinal de positivo para negativo: “Em verdade vos digo: quantas vezes o deixaste de o fazer a um dos meus irmãos mais pequeninos, também a mim deixaste de fazer”.

3. Temos, aqui, a clandestinidade de Deus e de Cristo no seu máximo ocultamento. Nem quem fez o bem nem quem fez o mal sabe que estava a servir ou a ofender a Deus. Também não pensa em prémio ou castigo. O que nos salva ou nos perde é a atenção ou a indiferença perante os necessitados.

A qualidade moral desta narrativa é simplesmente admirável. A qualidade religiosa não é confessional. A atenção e a ligação extremas – características da religiosidade – realizam-se no cuidado concreto com quem precisa, só porque precisa. Neste dom, existe um secreto movimento e encontro com o Infinito. É, pelo menos, a interpretação do Senhor desta
história. No entanto, o juiz do bem e do mal, por mais justo que se mostre, não se parece muito nem com Jesus Cristo nem com o seu Deus de pura misericórdia. Um inferno eterno é uma maldade que nem um autor tão ortodoxo e tão louvado por Bento XVI, como H. U. von Balthasar – apresentado, aqui, no Domingo passado – conseguiu suportar. Como alguém me observou, o final desta narrativa está em contradição com o mandamento do próprio Jesus, apresentado neste mesmo Evangelho de S. Mateus: “Ouvistes o que foi dito:
Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores. Porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem já isso os publicanos? E, se saudais somente os vossos
irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste”.

Será que S. Mateus tinha pouca memória e, passados vinte capítulos, já não se lembrava da originalidade radical do caminho cristão que tinha proposto?

A este respeito – e sobretudo depois do recente Sínodo dos Bispos sobre a glorificação da “Palavra de Deus” – importa perguntar para não cair em fundamentalismos: que entendemos por esta metáfora? Como diz Schillebeeckx, a auto-revelação de Deus é dada em experiências humanas interpretadas. Nunca temos acesso à “Palavra de Deus” de modo imediato. Estritamente falando, a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas um conjunto de testemunhos de fé de crentes que se situam numa tradição particular da experiência religiosa. É por isso que, no uso litúrgico, utilizo o menos possível a conclusão solene:
“palavra do Senhor”, precisamente porque Deus nunca fala assim. São crentes que falam. Voltarei a este tema.

Frei Bento Domingues, o.p.

publicado por Re-ligare às 01:17
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Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008
Pai de todas as Virtudes… (2)

 

O perdão não é um tema restrito ao mundo das artes. Ele fez história e constituiu-se, também, como uma experiência indispensável na vida social.
 
Em 1989, num gesto simbólico, o Presidente da República Dr. Mário Soares pediu perdão pelas perseguições que o povo judeu sofreu em Portugal. Posteriormente, em 1996, o parlamento português votou por unanimidade a revogação do Decreto de Expulsão dos Judeus em Portugal. Na Sessão Evocativa dos 500 anos desse documento, o Presidente da República em exercício, Dr. Jorge Sampaio, referia: “Esta decisão, tomada em nome do Povo Português, assume um alto significado simbólico e tem um excepcional valor pedagógico. É como se, hoje, restituíssemos uma parte do que, há 500 anos, fora negado.”
 
Quem não se lembra do célebre pedido de perdão de Mehmet Ali Agca pela tentativa de homicídio do Papa João Paulo. Finalmente, a histórica e uma das mais famosas confissões de culpa e respectivo pedido de perdão, o da Igreja Católica ao povo Judeu mediante a pessoa e ministério de João Paulo II.
 
Apesar da palavra, aparentemente, começar por pertencer à dimensão religiosa ou moral dos indivíduos, verificamos que, a eventual génese divina deu lugar a várias aplicações do conceito nas restantes esferas da vida social.
 
A história da literatura portuguesa deve a jóia da sua coroa, a epopeia “Os Lusíadas”, a um acto de perdão. Preso em 1553, o poeta português Luís Vaz de Camões, recebeu a sua “Carta de Perdão” a fim de partir na famosa viajem para a Índia. O Perdão Régio foi concedido pelo rei, condicionando porém o nosso poeta prisioneiro ao serviço do Reino.
 
Correlativamente, na história contemporânea observamos a prática do apelidado Perdão Político. Associada às comemorações do 25 de Abril, 25 de Novembro ou eleição de um novo Presidente da República, a Assembleia da República pode conceder a anulação ou redução do tempo de uma pena. Já o Indulto se distingue pelo facto de ser proposto pelo ministro da Justiça e concedido pelo Presidente da República.
 
Do âmbito político para o fiscal, a popular Lei Mateus apresentou-se como uma proposta do governo em conceder aos contribuintes uma redução substancial do pagamento de um imposto de forma a promover a regularização das suas dívidas fiscais – em particular na tentativa de salvar alguns clubes de futebol. Enquanto o Estado supostamente beneficiava de algum encaixe financeiro (provavelmente de dividas que por prescrição dos processos ou falta de condições no pagamento da totalidade nunca seriam pagos), aos contribuintes em falta foi concedida a oportunidade de recuperar a sua estabilidade financeira.
 
Pioneiros e exemplares, no campo económico os noruegueses fazem do perdão da dívida aos países mais pobres um princípio importante da sua política de desenvolvimento. Com este gesto procuram contribuir para a redução da pobreza participando assim, activamente, no desenvolvimento desses países. O seu exemplo tem sido também uma influencia para que os países mais ricos considerarem a possibilidade de perdoar as dívidas dos países mais pobres. Perante a catástrofe que em 1999 assolou Moçambique, Portugal perdoou 38% da sua dívida de modo auxiliar a reconstrução daquele país destruído pelas cheias.
 
Finalmente, podemos observar ainda a experiência do perdão no âmbito da saúde. As universidades de Michigan, Stanford e a Universidade da Comunidade de Virgínia, têm vindo a desenvolver várias pesquisas a fim de quantificar os efeitos que o perdão e o sentimento de ressentimento podem provocar na saúde. Estes estudos têm revelado que o ressentimento aumenta exponencialmente a probabilidade de ficar doente enquanto que, o acto de perdoar, evita o aumento de Cortisol no organismo – um homónimo responsável pelo stress – e promove o necessário equilíbrio ao bem-estar do nosso corpo.
 
Da cultura à história, da política à fiscalidade, da economia à saúde, podemos verificar a importância do perdão na construção da nossa organização social. Independentemente da sua matriz metafísica, o valor redentor inerente ao acto de perdoar apresenta-se como condição transcendental para um desenvolvimento sustentável, transversal a todas as sociedades.
             
Simão Daniel
(aluno do Mestrado em Ciência das Religiões)
publicado por Re-ligare às 10:31
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Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008
SÓ O AMOR É DIGNO DE FÉ

 

 
1.A Suíça não é só a pátria dos banqueiros, dos relógios e dos queijinhos da “vaca que ri”. No século XX, foi também a pátria de fecundos e grandes teólogos em trânsito para o grupo dos clássicos. Um é protestante, Karl Barth, e dois são católicos romanos, Hans Urs von Balthasar e Hans Küng. Os dois primeiros já morreram, cheios de glória, e o último continua a sua desafiante intervenção. Não consta que K. Barth e H.U. von Balthasar tenham passado por Portugal ou tenham sido, cá, muito traduzidos. Mais sorte tivemos com H. Küng que, por várias vezes, fez conferências em Lisboa, Porto e Coimbra e tem algumas obras publicadas entre nós. Uma das mais significativas, O Cristianismo. Essência e História, apareceu no Círculo de Leitores, na colecção “Nova Consciência”.
Em 2005, os cem anos do nascimento de Urs von Balthasar foram celebrados num congresso internacional com uma calorosa mensagem de Bento XVI. O Centro de Estudos de Religiões e Culturas da Universidade Católica Portuguesa organizou, nos dias 24 e 25 de Outubro passado – nos vinte anos da sua morte – as I Jornadas Balthasarianas. Na colecção “Teofanias” (Assírio & Alvim), dirigida por Tolentino Mendonça, acaba de aparecer o formoso livro, “Só o Amor é digno de Fé”, cujo original alemão foi publicado em 1963. A tradução é de Artur Morão que, ao apresentar este pequeno livro, caracteriza a sua teologia: “O discurso balthasariano, que não visa nem assenta num sistema, realiza uma feliz conjunção de rigor filosófico e inspiração espiritual, de empenhamento teológico e missão cultural, de coerência lógica e vivacidade poética, de vivência intensa e de impulso protréptico ou persuasivo, de denúncia apaixonada e de convite amistoso, porque pretende justamente realçar o que, aos seus olhos, constitui o cerne da visão cristã: o Amor como Beleza”.
                
2. Rosino Gibellini (1) documentou, no século XX, dezasseis correntes teológicas de grande mérito – assim como uma prospectiva para o século XXI – com a consciência de que nenhuma delas pode substituir as outras. Esta pluralidade impede que se diga – como tantas vezes se faz – este ou aquele é o maior teólogo do século XX, porque essas gradações dependem, sobretudo, do gosto, dos limites e das preferências de cada um. Nenhuma elaboração teológica – ao situar-se no mundo da hermenêutica da fé – pode ter a pretensão de atingir um lugar e um estatuto, a partir dos quais avalia a importância e a ortodoxia das outras. Na Igreja católica, a Comissão para a Doutrina da Fé exerce um papel que, às vezes, dá a ideia de assumir essa posição impossível. As teologias só podem ser fecundas, quando cada uma sabe que é um ponto de vista parcial e consente em se deixar interrogar e questionar pelas outras. Como em muitos outros campos, é mais corrente a prontidão em procurar ser compreendido do que em tentar compreender. No prefácio ao “Só o Amor é digno de Fé”, o próprio H.U. von Balthasar confessa: “Este ensaio ilustrará, por isso, o desígnio da minha obra mais vasta, Herrlichkeit, de uma «estética teológica» no duplo sentido de uma doutrina da percepção subjectiva e de uma doutrina da automanifestação objectiva da glória divina; mostrará que este método teológico, muito longe de ser um produto acessório, pouco relevante e dispensável, do pensamento teológico, deve, pelo contrário, como o único definitivo, pôr-se no centro da teologia, ao passo que a verificação cosmológica e histórica e o exame antropológico podem, quando muito, surgir como pontos de vista complementares e secundários” (p.24).
Aquilo que apelida de «estética» tem, aí, um carácter puramente teológico: é o acolhimento, só apreensível na fé, da glória do amor soberanamente livre de Deus, que a si mesma se manifesta. Diz isto não só para se demarcar das outras teologias, mas também de todas as outras tentativas estéticas que o precederam e que nomeia.
                      
3. “Falar de poesia parece-me sempre impossível. De um poema só se pode dizer o próprio poema. Quando muito podemos tentar – sem interpretar – reconhecer o que lá está”. Esta observação de Sophia M.B. Andresen exprime, em parte, o desejo de H.U. von Balthasar perante a revelação de Cristo e a caracterização da identidade cristã. Como diz e bem, “não é possível colocar outro texto por baixo do texto de Deus, que por ele se poderia tornar legível e compreensível ou, dizemos nós, mais legível e mais compreensível. O texto de Deus deve e quer explicar-se a si mesmo”(p.52).
O que é que terá levado este teólogo a não se recolher no puro silêncio? O cristianismo nasce da difusão da palavra do amor e da sua beleza, não do seu cativeiro. Por isso, a estética teológica de H.U.von Balthasar não é uma teologia estética ao serviço de um cristianismo estetizante. O que ele procurou, através de uma construção imensa, foi apreender o estético da própria revelação, na evidência objectiva de Cristo, “obra artística de Deus”, sua exegese, expressão adequada e visível do Deus invisível, no mistério da Cruz.
 
(1)   A Teologia do século XX, São Paulo, Loyola, 1998; Prospettive Teologiche per il XXI secolo, Brescia, Queriniana, 2003.
 
 Frei Bento Domingues, o.p.
(1º dir. da Lic. em Ciência das Religiões)
 
publicado por Re-ligare às 10:52
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Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008
Pai de todas as Virtudes… (1)

              

Quadro de Rembrandt, O Regresso do Filho Pródigo

                  

“…esconderam-se o homem e a mulher da presença do Senhor, entre as árvores do jardim…” Génesis 2,8
 
 “Porque os outros se mascaram mas tu não.
Porque os outros usam da virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.” Sophia de Mello Bryner
 
 
Ao olhar para o quadro do magistral Rembrandt, O Regresso do Filho Pródigo, sinto que a sua obra nos deixou algo mais do que o seu legado artístico. Pese embora a ignorância das artes, avivasse na memória A mulher adúltera, da qual Nicolás Poussin nos fez herdeiros. Perdoem-me os entendidos, além das nacionalidades não sei identificar as diferenças mais relevantes entre estes mestres do pincel. Talvez por isso, salte aos meus olhos uma semelhança – quiçá de todas a mais frágil – ambos ousaram pintar duas das mais belas histórias de perdão.
               
Enquanto as contemplo, sinto-me tentado em legendá-las. Não de minha lavra. Proponho-me recorrer de outros punhos do mesmo génio. Reconhecendo que o espírito paira agora sobre a pena, selecciono as palavras de Shakespeare: “O perdão cai como uma chuva suave do céu na terra. É duas vezes bendito: bendito ao que dá e bendito ao que recebe.” Sobre esta mesma dádiva Fernando Pessoa escreveu:
 
“Não haverá, enfim, para as coisas que são, não morte, mas sim uma outra espécie de fim, ou uma grande razão – Qualquer coisa assim, como um grande Perdão?”
 
Nesta amálgama de pincéis e penas, eis que ouço uma batuta nas mãos de um outro mestre, Sebastian Bach. Como que sonorizando o ambiente que acolhe a construção destas linhas, a Ária nº 47 «Paixão Segundo S. Mateus» entoa o pedido de perdão do apóstolo Pedro.
 
Modestamente, entre símbolos e simbologias, ouso envolver o leitor num ambiente que salienta a presença do perdão no nosso património cultural. Em particular, o legado daqueles cuja mestra interpretação do seu mundo teve em comum, entre outros, o mesmo paradigma: o reconhecimento do perdão como Pai de todas as Virtudes.
 

 

Simão Daniel
(aluno do mestrado em Ciência das Religiões - Lisboa)

 

publicado por Re-ligare às 17:32
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Sexta-feira, 7 de Novembro de 2008
A convalescença

 

 

Portugal está em convalescença!
 
Se Antero de Quental estava certo, o vírus que provocou a doença foi o cristianismo tridentino, que fez cair sobre o país uma sombra densa que se transformou no que podemos chamar de uma longa noite portuguesa!
 
Deve-se ao Concílio de Trento essa degeneração que foi desfigurando o cristianismo, ao ponto de o tornar uma máquina de perseguição e tortura que, durante três séculos, praticou um «Santo Ofício», deixando o país num estado de saúde muito precário. A censura ideológica e a perseguição religiosa, institucionalizada e em força até ao século XIX, ajudaram a criar tiques de exclusivismo, exclusão e intolerância. Estava assim feito o caminho para um longo período de igreja única e de partido único, o qual marcou três quartos do século XX.
 
O país perdeu os sentidos – entrou em coma profundo!
 
Em Levítico 18:27-29 Deus advertia Israel severamente, dizendo que as gerações passadas tinham feito coisas abomináveis e que isso tinha feito a terra adoecer! A advertência agora era para que as novas gerações não cometessem as mesmas abominações; caso contrário, a terra vomitá-las-ia!
 
Aqui, entre nós, também houve gerações que fizeram o país adoecer gravemente! O problema é que estes fenómenos são como as ondas do mar: depois de recuarem e desaparecerem ainda deixam na praia os seus detritos…intolerância, preconceito, exclusão, são os restos dessa doença nacional.
 
Resta-nos, pois, a esperança numa geração da convalescença; sim, porque é possível despontar uma geração que venha «curar a terra» (tal como está identificada em 2 Crónicas 7:14). 
 
Já tivemos, há 880 anos, a primeira tarde portuguesa; vivemos mais de 400 anos no que aqui chamamos de uma longa noite portuguesa; agora, já é tempo que se faça dia!
 
Luís Melancia
Docente na Lic. em Ciência das Religiões

 

publicado por Re-ligare às 15:53
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Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008
Não deixar à morte a última palavra

 

1.«Tentemos viver de tal modo que, quando morrermos, até o homem da agência funerária lamente a nossa morte». Esta proposta de Mark Twain é um grande programa. A suposição de que ele raramente é cumprido, separou a festa de Todos os Santos da celebração dos Fiéis Defuntos. Há pessoas que, nem no céu, gostaríamos de encontrar como a morte as encontrou. Só uma boa purificação (um purgatório) as poderia tornar companhia apetecível. Quando se pensa em todos aqueles que foram um inferno para os outros, só o inferno parece o seu destino adequado.
Este aparente bom senso – a que se poderiam acrescentar as tristes “reencarnações” – não vai além da transposição para o “outro mundo” do sistema de prémios e castigos que nem para este vale grande coisa. Tem o inconveniente de não respeitar o imenso mistério da vida e da morte e faz de Deus um miserável justiceiro.
Temos testemunhos de que, há muitos milhares de anos, os seres da nossa espécie se despediam dos falecidos com diversos rituais, segundo as diferentes culturas e religiões. Confessavam, sabendo ou não de forma reflexa, que o funeral não era o fim de tudo, a última palavra sobre as pessoas que amavam. Se assim não fosse, todas aquelas flores e ritos poderiam celebrar uma memória, mas seriam dirigidos a ninguém.
Quando morre uma personalidade célebre, faz-se o elogio da sua obra, mas o autor parece que já não conta. Só há futuro para o património. Destaca-se a obra e as pessoas são reduzidas à categoria de cinzas, de estrume.
Nos cemitérios, as lápides e os jazigos podem evocar um itinerário, mas a obra mais digna de nota, de cada ser humano, é ele próprio. Ser verdadeiramente bom vale mais do que todas as realizações científicas, técnicas, filosóficas e artísticas. O santo, o verdadeiro santo, configurado pelo amor de compaixão, vale mais do que todo o mundo material, embora tudo isso possa e deva contribuir para o bem e a beleza da humanidade. Como se costuma dizer, quando morremos, deixamos tudo o que possuímos e só levamos o que somos.
Aqui, são possíveis as atitudes mais diversas, mas não é muito cristão desqualificar as posições de ateus, agnósticos ou dos membros de outras religiões. Perante a morte, não importa procurar saber quem está certo ou errado. Estamos todos sem defesa. O próprio Jesus, no Jardim das Oliveiras e na Cruz, mergulhou no medo e na angústia. O cristão deve, no entanto, estar pronto a dar razão da sua esperança.
2. Conta-se que Jesus enviou setenta e dois discípulos a anunciar o seu Evangelho. Regressaram como adolescentes de um campo de férias. Jesus ouviu tudo e confirmou que tinha sido realmente espantoso. Depois, acrescentou: não vos alegreis pelo facto de nada deste ou de outro mundo ter resistido à vossa palavra; alegrai-vos, sobretudo, porque os vossos nomes estão escritos nos Céus. A expressão “nos céus” é o equivalente a Deus transcendente que está acima de todo o nome, isto é, alegrai-vos porque a vossa vida está para sempre inscrita no coração de Deus e ninguém vos poderá arrancar desse amor.
Ao dizer isto, o próprio Cristo ficou espantado: «Nesse mesmo instante, Jesus exultou de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos (…) Voltando-se, depois, para os discípulos, disse-lhes em particular: Felizes os olhos que vêem o que estais a ver. Porque - digo-vos - muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não o ouviram!» (Lc 10, 17-24).
3. A vida humana é uma evolução contínua. Se a morte fosse a última palavra, a pessoa humana estaria a evoluir para o nada. A fé consiste em acreditar que a personalidade de cada um de nós está inscrita no eterno amor de Deus que nenhuma morte poderá vencer.
Para mim, é este o coração da revelação cristã. Não adianta preocupar-se em saber como será a vida depois da vida que conhecemos. Não temos nem a geografia nem o calendário nem a configuração do céu. Todas as evocações ou descrições são, apenas, tentativas de preencher a nossa ignorância, transpondo, para o Além, o que há de melhor (o céu) e o que há de pior (o inferno) neste mundo. É certo que há música e pintura que procuram evocar o estado daqueles que já se encontram na alegria de Deus. No entanto, as evocações de todas as artes, mesmo as mais sublimes, serão sempre a miséria que se pode arranjar para não ficarmos mudos e cegos.
Para quem acredita que “os defuntos” estão, misteriosamente, com Cristo e connosco, neste dia dos Fiéis Defuntos deveria alterar as suas representações: não se reza por eles, reza-se com eles e eles connosco. Deus é Deus dos vivos. Não fez a morte nem à morte deixou a última palavra (Sb 1, 13-15). Não conhecemos, no entanto, nenhuma possibilidade de representar aquilo que Paulo chama “ressurreição” (1Cor 15, 53ss). Podemos, porém, rezar Àquele que tem compaixão de todos: «porque todos são teus, ó Senhor, que amas a vida!» (Sb 11, 23. 26).

          

    Frei Bento Domingues, o.p.

(1º director da licenciatura em Ciência das Religiões)

 

publicado por Re-ligare às 09:37
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