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Segunda-feira, 20 de Abril de 2009
A Linguagem da Páscoa
 

Nos últimos tempos, quando, nos grandes meios de comunicação, se fala de Hans Küng, um famoso teólogo suíço da Universidade alemã de Tubinga, não é para apresentar a sua vida de professor, investigador e autor de muitos títulos notáveis, mas para destacar as suas tomadas de posição em relação ao Vaticano.

É uma grande injustiça classificá-lo, apenas, como um teólogo rebelde. É sobretudo um pensador crítico. A sua obra, traduzida em várias línguas, deveria merecer a atenção do grande público. É uma obra de diálogo com as outras Igrejas cristãs, com as outras religiões, com a Modernidade e Pós-Modernidade. Interessa-lhe a mobilização dos meios académicos e da  opinião pública para a elaboração de uma ética mundial. Não quis encerrar o seu percurso com a publicação de dois volumes de Memórias. Já está traduzido
no Brasil uma das suas últimas obras, coroa de uma vida: o diálogo entre ciência e religião (1). A linguagem da Páscoa

Ele próprio explicita o espírito do seu projecto: não se trata de um modelo
de confrontação entre ciência e religião, seja ela de matriz fundamentalista-premoderna – que ignora tanto os resultados da ciência como os da exegese histórico-crítica – seja de índole racionalista-moderna que exclui as perguntas filosófico-teológicas fundamentais e declara, de antemão, irrelevante a religião; também não é um modelo de integração de
tendência harmonizadora, seja ele defendido por teólogos que acomodam os resultados científicos aos seus dogmas, ou proposto por cientistas que instrumentalizam a religião em benefício das suas teses; é, antes, um modelo de complementaridade baseado na interacção crítico-construtiva de ciência e religião. Neste, respeita-se a esfera própria de ambas e evita-se toda a passagem ilegítima de uma à outra, assim como se afasta toda a absolutização de qualquer delas. Por meio do questionamento e enriquecimento mútuos,
procura-se fazer justiça ao conjunto da realidade em todas as suas dimensões.

Nesta obra-síntese de um longo percurso, aborda o princípio de todas as coisas e a sua evolução.

No epílogo, interroga-se sobre o final de todas ascoisas. A sua fé, pondo de lado ornamentos lendários posteriores, centra-se no núcleo da mensagem do Novo Testamento sobre a ressurreição: a morte não conduziu Jesus de Nazaré ao nada, mas a Deus. “Esta é a minha esperança ilustrada, bem fundada: a morte é uma despedida que leva para dentro; é a entrada no Fundamento e Origem do mundo, nosso verdadeiro lar. É o regresso
a casa”.

2. Tenho todo o respeito pela teologia dialógica de Hans Küng. Embora também ele frequente os poetas e os músicos – escreveu uma obra sobre Mozart, Wagner e Bruckner – não me parece que valorize suficientemente a capacidade de conhecimento que existe na arte. A consistência artística, literária, poética, musical da expressão religiosa não é apreciada, pela maioria dos teólogos, como a grande linguagem da fé, a linguagem da Páscoa. A procura da verdade doutrinal desvia, muitas vezes, a atenção do poder cognitivo dos mitos, dos símbolos, dos ritos, das metáforas da linguagem religiosa.

Não se trata de desvalorizar outras linguagens na busca do conhecimento.
M.S. Lourenço escreveu-o de forma magistral: “O artista verdadeiro é aquele que alcançou o conhecimento verdadeiro, o qual consiste na percepção da realidade sensível e na intuição da realidade inexprimível”. Não contrapõe a procura da Verdade da Literatura à da Ciência, precisando, no entanto, que “esta procura da Verdade não é apresentada da mesma maneira, uma vez que a formulação estética, a criação da forma, é um objectivo da Literatura e não constitui um objectivo do trabalho científico”. Por outro lado, hoje, “estamos em condições de poder relativizar a dicotomia entre a intuição e o raciocínio e de restaurar a confiança no papel da intuição no processo do conhecimento e, deste modo, no valor cognitivo da experiência simbólica da obra de arte literária”.

É nesta perspectiva que coloca “a questão das fronteiras entre a Literatura
e a Religião, a qual também é um domínio de percepção simbólica”. Defende “a
ideia de que o culto religioso não existe incondicionalmente e que a expressão da experiência religiosa é condicionada pela formulação literária que a descreve, uma vez que esta é o veículo da asserção religiosa. O passo de São João segundo o qual o princípio é o Logos é assim interpretável como exprimindo a ideia segundo a qual o Logos, a fórmula, é a linguagem universal e, portanto também, a da Religião e do seu culto. Assim o problema
da verdade da Religião reconduz-se ao problema da verdade das fórmulas da literatura subjacente. Uma doutrina religiosa é apenas tão verdadeira quanto o for a fórmula literária que a transmite” (2).

Para o grande músico teólogo, Olivier Messiaen (1908-1992), “as investigações científicas, as provas matemáticas, as experiências biológicas acumuladas não nos salvaram da incerteza. (…) De facto, a única realidade é de uma outra ordem: situa-se no domínio da Fé. É pelo encontro com um Outro que nós podemos compreendê-la. Mas é preciso passar pela morte e Ressurreição, o que supõe o salto para fora do Tempo.

 

Crónica do Frei Bento Domingues, o.p.  publicada no Público

 

(1) Hans Küng, O Princípio de Todas as Coisas: Ciências Naturais e Religião,
Petrópolis, Vozes, 2007

(2) M.S. Lourenço, Os degraus do Parnaso, Lisboa Assírio & Alvim, 19982, Cf.
pp. 71; 75-76

publicado por Re-ligare às 12:16
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Sábado, 18 de Abril de 2009
Crise e crítica na Igreja
 

 

"Quem se não apercebeu ainda da crise por que passa hoje a Igreja Católica?
Um grupo de 300 teólogos e responsáveis de comunidades de base espanhóis - alguns, como A. Torres Queiruga, Juan Masiá, J. A. Estrada, J. J. Tamayo, J. I. González Faus, teólogos de renome - acaba de publicar um documento intitulado Ante la crisis eclesial, no qual defende que "a causa principal da crise é a infidelidade ao Concílio Vaticano II e o medo das reformas exigidas".
 
Num procedimento que eles próprios consideram ser "extraordinário" - não é também extraordinária a causa que o motiva: "a perda de credibilidade da instituição católica"? -, reconhecem que "este descrédito pode servir de desculpa para muitos que não querem crer, mas é também causa de dor e desconcerto para muitos crentes".
Responsável fundamental é a Cúria Romana. O Concílio teceu-lhe críticas duríssimas, Paulo VI tentou pôr em marcha uma reforma, mas ela própria bloqueou-a. As culpas não são, pois, exclusivamente de Bento XVI, com quem aliás se solidarizam: "O erro grave de todos os pontificados anteriores foi precisamente deixar bloquear essa reforma urgente."
A primeira consequência do bloqueio é "o poder injusto da Cúria sobre o colégio episcopal", derivando daí "uma série de nomeações de bispos à margem das Igrejas locais e que busca não os pastores que cada Igreja precisa, mas peões que defendam os interesses do poder central".
Aqui assentam outras duas consequências: a mão estendida a posições da extrema-direita autoritária e ataques sem misericórdia contra quem está próximo da liberdade evangélica, da fraternidade cristã e da igualdade de todos os filhos e filhas de Deus, "tão clamorosamente negada hoje". Depois, há "a incapacidade para escutar", que faz com que "a instituição esteja a cometer ridículos maiores do que os do caso de Galileu". De facto, a ciência oferece dados que a Cúria prefere desconhecer, concretamente nos "problemas referentes ao início e ao fim da vida". A proclamada síntese entre fé e razão fica anulada.
Estas são "horas negras" para o catolicismo romano. Os autores lembram as rupturas de Fócio, que desembocou no grande cisma de 1054, e de Lutero, para sublinhar que também hoje "se não pode esticar demasiado a corda em tensão". Mas "Deus é maior do que a instituição" e "a alegria que brota do Evangelho dá forças para carregar com os pesos mortos". Por isso, os subscritores do documento, animados exclusivamente pelo amor a uma Igreja enferma, não se sentem superiores nem vão abandoná-la, mesmo que tenham de suportar as iras da hierarquia.
A quem se possa escandalizar lembram que a Igreja foi ao longo da sua história "uma plataforma de palavra livre". Assim, Santo António de Lisboa pôde pregar publicamente que Jesus tinha dito: "apascentai as minhas ovelhas", mas os bispos da altura entenderam: "ordenhai-as e tosquiai-as". O místico São Bernardo escreveu ao Papa, dizendo-lhe que não parecia sucessor de Pedro, mas de Constantino, perguntando: "Era isto que faziam São Pedro e São Paulo?" Comentando, o actual Papa escreveu, em 1962: "Se o teólogo de hoje não se atreve a falar dessa forma, é sinal de que os tempos melhoraram? Ou é, pelo contrário, sinal de que diminuiu o amor, que se tornou apático e já não se atreve a correr o risco da dor pela amada?"
Neste contexto e por ocasião da passagem dos 25 anos da sua morte, deixo aqui a minha homenagem ao antigo professor, Karl Rahner, um dos maiores teólogos católicos do século XX, que escreveu num pequeno livro que então traduzi - Liberdade e Manipulação - que a liberdade tem prioridade sobre a autoridade, que só se legitima como função de serviço; esta reinterpretação funcional da autoridade obrigará a superar "a mentalidade institucionalizada dos bispos, feudal, descortês e paternalista" e implicará a limitação temporal nos cargos eclesiásticos, incluindo o papal, que as decisões e directrizes sejam, em princípio, explicadas ao público, com razões, e que se volte a "pensar numa colaboração do povo na nomeação dos hierarcas".
 
Anselmo Borges
Padre e Professor de Filosofia
 
publicado por Re-ligare às 22:40
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Terça-feira, 7 de Abril de 2009
Exemplos de Vida

É muitíssimo interessante conhecer o que as biografias de Jesus descrevem acerca da forma como ele lidava com os seus discípulos e com situações não resolvidas que os afectavam interiormente, ou com as suas dúvidas. Duvidar é uma constante que sempre se fez presente na alma humana. É uma realidade intemporal.
Interessante é ver como um Homem acerca do qual tanto se escreveu, que tantos inspirou e continua a fazer (que nunca quis fundar nenhuma religião, nem sequer escreveu nada sobre si mesmo apesar de ousadamente dizer aos homens e mulheres para O seguirem) lidou com aqueles que por momentos o abandonaram, traíram, magoaram. Acerca destes homens também se escreveu e das suas atitudes, bem como da forma admirável como Jesus lidou com a situação.
É realmente um privilégio podermos ler as suas biografias. De facto, poder ler é uma virtude que felizmente hoje muitos têm acesso (somos nós bons mordomos desta oportunidade?) Estou ligada à alfabetização de adultos que infelizmente não tiveram oportunidade de aprender a ler e escrever há muitos anos, e conheço a sua realidade de perto, a vontade em poder conhecer melhor o mundo que os rodeia depois de decifrar a escrita e a leitura. Às vezes procuramos tão longe o que está tão perto de nós. Queremos alcançar o que não é revelado e desprezamos o que é tão óbvio. Estas pessoas partilham o sonho de participar na construção da sociedade com o que têm, com o que sabem, mas de forma mais eficaz.
E sabem como tirar lições que o passado oferece, são humildes para acreditar que aprendem até morrer...
Fechando este grande parêntesis sem parêntesis, volto à abordagem deste recurso inesgotável e acessível que é a Bíblia - um livro prático com aplicabilidade para os dias de hoje e na nossa própria vida – seria essa a intenção do Autor?
Talvez…
Certo é que muitos o afirmam por experiência própria e juntam as suas vozes a outras experiências passadas que felizmente ficaram escritas.
Os exemplos que lá estão ensinam quem quer aprender.  
Falo das Escrituras Sagradas - conhecê-las não é redutor ou “castrador”. Mais do que reclamar direitos ou ser apenas um espectador da vida e do mundo que nos rodeia, há que saber o que fazer, ou melhor, saber ser para poder depois pelas nossas próprias mãos fazer a nossa parte – contribuir para tornar o mundo melhor.
Ler as Escrituras com uma atitude interessada é uma das melhores formas de “passar tempo com Deus”.
Voltando ao que as biografias deste Homem contam (apenas mais um personagem histórico para uns, para outros mais do que isso) acerca de situações não resolvidas e traição dos seus amigos e da forma como Ele lidou com a situação; o passado pode ensinar quem quer aprender.
As Escrituras Sagradas não descrevem só boas experiências, mas também más. A vida é feita de ambas.
Jesus foi traído, por Judas.
Foi negado por Pedro.
Tomé duvidou da Sua ressurreição, mesmo depois de os seus amigos terem contado que O tinham visto.
E o que Jesus fez? Ele não lhes virou as costas.
Em relação a Judas abordou o assunto à mesa quando estavam todos juntos, antes deste O entregar aos soldados, como que um aviso para que ele pudesse escolher – não fazê-lo.
Em relação a Pedro, também lhe disse antecipadamente que ele iria negá-lo perante os que o questionaram, como que a avisá-lo…
Em relação a Tomé, apesar de saber da sua incredulidade perante o relato dos seus amigos - apareceu perante os seus olhos para que Tomé pudesse tirar as suas dúvidas.
Estes três homens pertenciam ao grupo dos doze discípulos que sabemos terem um relacionamento muito próximo consigo.Em nenhuma destas situações Jesus virou as costas por causa da incredulidade dos seus amigos, dos seus discípulos.
Jesus lidou com a situação e levou-os a lidar com a situação.
Sócrates disse: Uma vida não examinada não é uma vida digna de ser vivida.
Não há que temer resolver o que não ficou resolvido.
Pedro negou três vezes conhecer Jesus com medo de ser preso e após a sua ressurreição, Jesus aparece e pergunta três vezes a Pedro se este O amava. Fê-lo para que Pedro pudesse encarar e perder o sentimento de culpa que ainda tinha dentro de si.
E como Jesus o fez? Disse-lhe também três vezes – “apascenta os meus cordeiros”.
Jesus deu a Judas oportunidade de não decidir mal, quando à mesa durante a ceia abordou o assunto e quando depois Judas chegou com os soldados para o prender, Jesus ainda o chamou de amigo - “Amigo, porque vieste?”
Jesus apareceu a Tomé, apesar das suas dúvidas. Talvez Tomé quisesse acreditar. Ele disse - “Se não vir… de modo nenhum crerei”
Será que se pode aprender com estes exemplos e aplicá-los nos nossos relacionamentos, na forma como lidamos com as nossas dúvidas, incredulidade? Saber o que Jesus fazia perante isso, como Ele lidou com os seus amigos mais chegados enquanto Homem na Galileia, na Judeia, há mais de dois mil anos atrás… pode ajudar a fazer uma reflexão teológica – que se quer prática na nossa própria vida em primeiro lugar.
Esta riquíssima personagem histórica, tão diferente do contexto em que viveu e que ainda hoje se destaca, mostra tão claramente através da sua vida que há uma mensagem para os dias actuais: É possível vencer as piores aspirações humanas. Elas podem transformar-se em canais de vida, “vida com abundância” para uma sociedade que está doente e a clamar por esperança.
 
Florbela Nunes
Aluna do 3º ano da Licenciatura de Ciência das Religiões
 
publicado por Re-ligare às 00:50
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Segunda-feira, 6 de Abril de 2009
PARA QUE A SEMANA SEJA SANTA


1.Tornou-se bastante habitual, nesta época litúrgica, receber, dos grandes meios de comunicação, descobertas sensacionais, tentando documentar as pretensas mentiras que
estariam na base do cristianismo.

Este ano ainda não dei por nada de semelhante. O bicentenário do nascimento de Darwin e as atitudes das igrejas perante a evolução e a propaganda anti-teísta bastam para entreter as conversas entre religião e ciência. Por outro lado, parece que já temos um messias com a solução para a crise mundial, produto essencialmente norte-americano bem exportado.

Nada disto impede, porém, que os investigadores sérios das origens do cristianismo e dos textos do Novo Testamento - a investigação já passou por diversas fases - continuem a procurar o Jesus histórico, o ambiente religioso e cultural em que viveu e a história da primeira expansão do movimento cristão, no mundo judaico e no mundo pagão. Multiplicaram-se, entretanto, as imagens acerca de Jesus de Nazaré, procurando cada um destacar aquela que julga ser a dominante: mestre espiritual, profeta escatológico, profeta carismático, reformador social, guerrilheiro, revolucionário político, taumaturgo e exorcista, mago, carismático itinerante, judeu marginal, etc.

Para tentar chegar a um consenso, o Jesus Seminar, fundado, em 1985, pelo falecido Robert Funk e John Dominic Crossan, patrocinado por Westar Institute de Sonoma (Califórnia), publicou, depois de vários estudo e debates, Os Cinco Evangelhos - incluem o de Tomé - a quatro cores que indicam o que Jesus certamente disse (vermelho), o que Jesus provavelmente disse (lilás), o que Jesus provavelmente não disse (cinzento), o que Jesus sem dúvida alguma não disse (preto) (1).

Não se deve concluir que se trata de um empreendimento insignificante e votado ao fracasso. Tudo o que for alcançado será sempre ganho - embora provisório - para a ciência e não atrapalha a fé cristã que não é só um fazer crer o mistério insondável de Cristo - mistério do mundo - mas, sobretudo, um "fazer-fazer", sem dúvida, o que se torna mais decisivo.

2. Albert Schweitzer (1875-1965), um alsaciano famoso, teólogo, filósofo, músico e um dos melhores intérpretes de Bach, convidado aos 24 anos para professor na Universidade de Estrasburgo, disse adeus às suas investigações sobre o Jesus histórico - um marco importante no começo do século XX (2) - e foi doutorar-se em medicina. Que terá acontecido para esta viragem, para o encontro de Cristo na história dos que sofrem?

Numa manhã de Pentecostes, A. Schweitzer foi acordado pelo toque dos sinos e, como escreveu: "Imóvel, escutei aqueles sons juntamente com a voz da minha felicidade íntima. Os meus sonhos mais radiosos tinham-se concretizado. A vida abria-se maravilhosa diante de mim. Mas, de repente, o meu pensamento voltou-se para uma multidão de homens, homens sem conta que nada possuíam. Vieram-me à mente as palavras de Jorge Nitschelm: "Se em minha casa houvesse a fartura que há na tua.", e as palavras do meu pai diante da estátua do negro: "a gente mais pobre e miserável do mundo.". Dentro de mim ressoavam insistentes as palavras do Evangelho: "Àquele que muito recebeu muito será pedido. Recebestes de graça, pois dai de graça. Pregai a palavra. Curai os enfermos.". Naquela manhã Albert Schweitzer, com calma e lucidez, tomou uma decisão: continuaria a dedicar-se à ciência por mais seis anos. Depois, deixaria tudo e iria para o país considerado, na altura, o mais miserável a fim de dedicar a vida aos seus irmãos mais esquecidos. Partiu para África (Gabão), como médico, fundou um hospital, onde tratava mais de 40 doentes por dia e, paralelamente ao serviço médico, pregava o Evangelho numa linguagem que despertava para o essencial e acessível a todos: agir em benefício do próximo (3). Este Prémio Nobel da Paz, mundialmente reconhecido com numerosas distinções honorárias, casado com Hélène e pai de 5 filhos, trabalhou até à morte, a 4 de Setembro 1965. Tinha 90 anos. Os seus restos mortais ficaram em Lambaréné, ao lado dos restos mortais da sua esposa, falecida em 1957 que, desde o começo do namoro, abraçou os sonhos de Albert.

3. Que haverá de comum entre o Mestre, morto como um criminoso às portas de Jerusalém - teria uns 35 anos - e este discípulo, pastor protestante, que morre, no cume da glória, aos 90 anos no Gabão? O essencial: ganhar a vida, gastando-a por aqueles que nada podem fazer por nós. A. Schweitzer, um grande intelectual e um artista consagrado, percebeu que o decisivo não é fazer uma carreira científica com a história de Jesus - embora isso possa ser culturalmente muito importante -, mas ajudar a fazer história de libertação a quem a história foi roubada antes de tempo. Só nesse horizonte é que é possível tornar santa a Semana Santa.

 
(1)  Robert W. Funk, Roy W. Hoover and the Jesus Seminar, The Five Gospels, The Search for the Authentic Words of Jesus, New York, Macmillan, 1993.

(2)  Albert Schweitzer, A Busca do Jesus histórico, São Paulo, Editora Cristã Novo Século, 2003 (orig.1906).

(3)  Cf. Terésio Bosco, Alberto Schweitzer, Porto, Edições Salesianas, 1990.

Frei Bento Domingues, o.p.

(1º director da lic. em Ciência das Religiões)

publicado por Re-ligare às 00:34
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