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Sábado, 19 de Dezembro de 2009
COMPANHEIROS DE VIAGEM

 

1.Na semana passada, a liturgia da Igreja Católica foi muito sóbria, apesar do paradoxo que celebrava: aqueles que morreram estão vivos. Por outro lado, que vão as pessoas fazer, aos cemitérios, onde só existem os restos mortais daqueles que amam? Perante essa escuridão, confiam que, do outro lado do abismo, os parentes e amigos não estão abandonados. Vão ali, para não se esquecerem deles.
Entre os mortos, nas celebrações civis e religiosas, também há categorias. Nas civis, discute-se quem merece e quem não merece ir para o Panteão Nacional, quem tem direito ou não a uma estátua, a um nome de rua ou de avenida. Pertence aos detentores do poder decidir as canonizações por méritos políticos, sociais ou culturais. Nos elogios fúnebres, enaltece-se a obra e o exemplo de uma personalidade, vincando, assim, o carácter elitista da consagração civil. Segundo esses critérios, para quem não deixar obra de vulto, não há memória que os resgate. No exército, ainda há lembrança para todos os militares, mediante a evocação do Soldado Desconhecido. Nos cemitérios, há margem para a devoção e a ostentação, segundo as posses de cada um.
As celebrações católicas, com a festa de Todos os Santos, fazem um esforço contra o elitismo. Confessam que os canonizados – e os que estão a caminho de o ser – são uma pequeníssima minoria em relação às visões deslumbradas do Apocalipse: “(…) Não façais mal à terra nem ao mar nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus. E ouvi o número dos que foram marcados: cento e quarenta e quatro mil de todas as tribos dos filhos de Israel. Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7, 2-14). No esforço contra o elitismo, estas celebrações não vão até ao fim: deixam ainda de fora os classificados sem glória, os Fiéis Defuntos.
2. Perante a morte, as celebrações laicas ou religiosas são formas de protesto, aparentemente inúteis, contra essa fatalidade. A partir de noções elementares comuns a toda a espécie humana, e que podem ser expressas por todas as línguas, bons, maus ou indiferentes são todos companheiros de viagem. Na inclusão ou na exclusão, na guerra ou na paz, fazem parte de uma aventura que mal sabem interpretar e que não é na morte que se pode resolver: é no caminho. As interpretações da vida – sejam elas científicas, metafísicas, éticas, estéticas, religiosas ou laicas – não são indiferentes à qualidade da viagem. Mas, se não quisermos que valha a vontade do mais forte, será preciso conversar, tornar o outro nosso hóspede ou de aceitar a hospitalidade do outro. Isto significa reconhecer que não estamos acabados, que não somos perfeitos, por isso estamos a caminho, com o sentido que cada um ou cada grupo descobre para a sua vida. Caminhamos com gente que vem de todo o lado, de todas as culturas, povos e línguas. Fora do diálogo, não há salvação.
3. Deste modo, num mundo pluralista, se resistirmos à mentalidade de gueto, a viagem é comum a laicos e religiosos, embora interpretada de formas diferentes. É o que nos indica uma parábola de há dois mil anos, a célebre Parábola do Samaritano (Lucas 10, 29-37) que pode ser entendida como proposta, como acusação ou como remorso, por qualquer pessoa, de qualquer língua, de qualquer cultura, de qualquer religião. Há uma versão, longe da letra, perto do espírito, cantada por Mercedes Sosa e Beth Carvalho: “Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente…”. Basta esta indicação para encontrar, na Internet, esse impulso novo para caminhar sem olhos vendados, olhando para as margens.
Os Actos dos Apóstolos resumiram o itinerário da intervenção de Jesus, neste mundo, numa frase muito simples: “passou, fazendo o bem”. Quando S. Mateus tentou interpretar o sentido de toda a história humana, levando-a a tribunal, quem se salva e quem se condena não é por causa de ter cumprido ou violado os preceitos de qualquer cultura ou religião, mas por aquilo que fez ou deixou de fazer perante a dor dos desamparados (25, 31ss). Este é, aliás, o cume da viagem da ética e da santidade: fazer o bem porque é bem; evitar o mal porque é mal, como já dizia S. Tomás de Aquino. Para o justo não há lei. A sua lei é a bondade, a compaixão. O princípio do recto agir não faz o bem pela recompensa nem evita o mal com o medo do castigo.
Durante muito tempo, o enjoo causado por péssimas “vidas de santos”, fez-nos perder de vista que a santidade é uma viagem de permanente transformação até encontrar o essencial da vida, segundo as características de cada pessoa. O Reino de Deus está dentro de nós, se nos tornarmos lugares de escuta do Espírito, no íntimo da consciência e na beleza e agonia do mundo.
A festa de Todos os Santos e dos Fiéis Defuntos, entendida a partir das deslumbrantes sugestões do livro do Apocalipse, é a festa da gente boa de toda a história humana e daquela que o amor transformou. Não tenhamos medo de juntar, no mesmo reino de alegria, santos ateus, agnósticos, místicos e aqueles que nunca souberam distinguir a mão direita da esquerda.
 

Frei Bento Domigues, O.P. (fonte: PÚBLICO, 08. 11.2009)

publicado por Re-ligare às 20:13
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