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Sábado, 19 de Dezembro de 2009
A “CARTA DA COMPAIXÃO”

 

1.No passado Domingo, na Mesquita junto à Praça de Espanha, por iniciativa, acção e amabilidade de Abdool Vakil, presidente da Comunidade Islâmica, foi possível reunir representantes de muitas religiões, ateus e agnósticos – não me recordo de participar, em Lisboa, numa assembleia tão diversificada – para reagir a um documento internacional chamado “Carta da Compaixão” (Charter for Compassion). Como em Portugal ainda é muito pouco conhecido, importa perceber como nasceu e o que pretende.
John E. Fetzer (1901-1991), pioneiro na construção de meios de comunicação, onde enriqueceu, fundou o Instituto Fetzer, com sede em Kalamazoo (Michigan), com a missão de “promover a consciência do poder do amor e do perdão na comunidade global emergente, baseado na convicção de que os esforços para abordar as questões importantes, no mundo, devem ir além das estratégias políticas, sociais e económicas, para atingir as raízes psicológicas e espirituais”.
O Prémio TED (Tecnologia Entretenimento e Design) surge como um evento, sem fins lucrativos, dedicado às “Ideias que vale a pena divulgar”. Desde 2005, com o apoio do Instituto Fetzer, reúne, em conferência anual, os mais fascinantes pensadores e realizadores do mundo que são desafiados, durante 4 dias, a uma viagem pelo futuro. São atribuídos prémios a três pessoas excepcionais que, em 18 minutos, apresentem “Um Desejo para Mudar o Mundo”.
Em 2008, a escritora inglesa, Karen Armstrong (1944-), recebeu este Prémio por ter lançado, com base na “Regra de Ouro”, tanto na sua formulação positiva como negativa, central em todas as religiões – quase sempre apresentadas como focos de guerras –, o desejo e o projecto daquilo que veio a ser a “Carta da Compaixão”. A participação global – pessoas de todas as nações, origens e credos –, no processo aberto da sua redacção, era um ponto de partida e uma exigência essencial. E assim aconteceu. Com esse método, a “Carta” consegue transcender as diferenças religiosas, ideológicas e nacionais para se tornar num instrumento de mobilização global.
2. A “Regra de Ouro” que K. Armstrong descobriu, com espanto, no coração das diferentes tradições religiosas, éticas e espirituais – embora formulada com pequenas diferenças e explicitada de várias maneiras na sua intervenção – costuma exprimir-se de forma negativa: não faças aos outros o que não desejas que outros te façam e, de forma positiva, faz aos outros o que desejarias que os outros te fizessem (1).
É este princípio que serve de guia a toda a “Carta da Compaixão”. As palavras dependem muito do seu uso e a “compaixão” evoca, para algumas pessoas, aquilo que, precisamente, não querem dos outros, isto é, comiseração, pena, situação de coitadinhos ou coitadinhas. Não entrando pela via do sentimentalismo e sem recorrer às etimologias que tem nas diferentes línguas, a compaixão não é, apenas, a recusa da indiferença. Impele a trabalhar, sem descanso, para aliviar o sofrimento do próximo, a destronar o nosso eu do centro do mundo, para aí colocar os outros. Ensina-nos a reconhecer o carácter sagrado de cada ser humano e a tratar cada pessoa, sem excepção, com respeito, equidade e absoluta justiça.
A Carta convoca todos os homens e mulheres a recolocar a compaixão no centro da moral e das religiões, a retomar o antigo princípio de que são ilegítimas todas as interpretações das Escrituras que geram violência, ódio ou desprezo, a garantir aos jovens informações precisas e respeitosas acerca das outras tradições, religiões e culturas, a incentivar uma visão positiva acerca da diversidade cultural e religiosa, a cultivar uma inteligência compassiva perante o sofrimento de todos os seres humanos, mesmo dos considerados inimigos.
3. Esta Carta não pretende lançar uma nova organização. Já existem centenas, em todo o mundo, a trabalhar, incansavelmente, em nome da compaixão e do diálogo não só inter-confessional, mas envolvendo todas as pessoas de boa vontade. O seu objectivo é fazer ressaltar o esforço de todos esses grupos e movimentos para aumentar a visibilidade do seu trabalho e torná-los contagiantes. A Carta pretende mostrar, de forma activa, que a voz do negativismo e da violência, muitas vezes associada à religião e às religiões, é apenas de uma minoria e que a voz da compaixão é, pelo contrário, a voz da grande maioria.
Em Portugal, como em muitos outros espaços, apanhamos o comboio em andamento, sem participar na elaboração desse pequeno e precioso texto sobre uma nascente escondida na floresta das grandes religiões, das grandes elaborações morais, muitas vezes ocupadas e preocupadas com discussões sem fim acerca de construções doutrinais e esquecidas do coração da vida. Que fazer para lhe imprimir uma dinâmica que envolva pessoas, grupos, organizações e movimentos para colaborar em tudo o que os une, respeitando e reforçando as diferenças que exprimem uma abundância de vida e de vontade na transformação do mundo?
 
(1)       Temas&Debates traduziu, desta escritora, desde 1998 até 2009: Uma História de Deus; Jerusalém: uma cidade, três religiões; O Islamismo: História Breve; Buda; Grandes Tradições Religiosas. Na Ed. Teorema apareceu Uma Pequena História do Mito.

Frei Bento Domingues, O.P. (fonte: PÚBLICO, 22.11.2009)

publicado por Re-ligare às 20:20
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