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Sábado, 19 de Dezembro de 2009
A CHAMADA VIA DA BELEZA

 

1.Tem sido muito repetida – também por mim nestas crónicas – uma afirmação de Dostoievski: “A beleza salvará o mundo”. Tudo depende, no entanto, do que se entende por salvar o mundo, mesmo quando se pensa que ele pode ter salvação. A beleza poderá salvá-lo se o libertar da fealdade que lhe foi imposta. A permanente intoxicação dos sentidos envenena a vida toda.
Na descoberta dos caminhos para o mistério de Deus, as vias da verdade e da bondade foram as mais recomendadas. Esquecida, porém, a beleza, as outras perdem capacidade de falar à inteligência e ao coração. Desde Paulo VI, passando por João Paulo II e pelo Papa actual, o tema da beleza tornou-se insistente. Os meios de comunicação, ao realçarem o encontro dos artistas com o Papa, na Capela Sistina, no passado dia 21, obrigam a pensar no que falta à pastoral da Igreja, a nível local e global, para que as suas expressões sejam linguagens do reconhecimento e da construção da beleza.
Seria, no entanto, uma grande injustiça esquecer os pioneiros da renovação da arte sacra, no século XX, em vários países, incluindo Portugal. Há casos exemplares de grandes arquitectos, escultores, pintores e músicos convidados para criarem ambientes para um culto autenticamente cristão, que nunca esteve dependente da sua monumentalidade. Nasceu em celebrações domésticas e o templo mais autêntico será sempre o da vida em espírito e verdade (Jo 4, 23).
2. As discussões em torno da arte sacra recaem, quase sempre, sobre a arquitectura. É ela que dá mais nas vistas de todos, crentes e descrentes, e que torna a paisagem, aos nossos olhos, mais bela ou mais feia. Sob este ponto de vista, admira-me tanta condescendência com bancos e centros comerciais que não perturbam menos do que as igrejas mais medíocres.
A polémica rebentou, agora, com a chamada igreja-caravela do arquitecto Troufa Real, para o Alto do Restelo. Dizem que o sonho de um templo, para aquela zona, já tem quase 50 anos. Segundo declarações de 2002, atribuídas ao padre António Colimão, goês por nascimento e formação, teria sido incumbido, em 1990, de construir a nova igreja. Delineou um projecto que cruzava os Descobrimentos Portugueses com o Oriente – o missionário Francisco Xavier, padroeiro da paróquia, viveu durante dez anos na Índia, Japão e outros países orientais. Esclareceu que, para além da caravela, elemento alusivo ao oceano, as cores dos diferentes edifícios que integram o complexo religioso relacionam-se “com o imaginário dos Descobrimentos e valores simbólicos da nação indiana”.
Sempre adiada, no momento em que ia começar, soltaram-se as críticas e nem todas me parecem levianas. Não seria esta uma boa ocasião para que os arquitectos portugueses, interessados pela arquitectura religiosa, convocassem um “concílio pluridisciplinar” e aberto ao público, para debater questões que nunca são suficientemente aprofundadas? Hoje, ninguém põe em causa a liberdade do artista, quando as consequências da sua criação são suportadas só por ele. Tudo se complica, se as comunidades humanas e religiosas, a que se destinam, são esquecidas. Quando não é promovida uma cultura das expressões estéticas da fé, é inevitável resvalar para conflitos sem saída.
3. Nem só a arquitectura de grande qualidade basta para servir o culto. Uma celebração não implica só o espaço destinado à comunidade. Depende, sobretudo, dos celebrantes. Quando se diz “celebrantes”, pensa-se, quase exclusivamente, nos padres e nos bispos. Eles, porém, existem para que toda a comunidade seja celebrante porque toda ela é constituída por sacerdotes, assim constituídos e declarados no Baptismo. O ritual – não o ritualismo – existe para que a cadência do silêncio, da proclamação dos textos, da execução musical, da distribuição da palavra, seja o tempo da transformação da mente e do coração da assembleia, em comunidade de irmãos em processo de reconciliação e abertos ao mundo.
Como nada disto é fácil, são precisos muitos contributos e a muitos níveis. Se as celebrações não devem ser aulas de religião nem tempo de aborrecimento comunitário, também não podem ser transformadas em sessões de histeria colectiva ou de excitação fundamentalista. Timothy Radcliffe, ex-Mestre Geral da Ordem Dominicana, professor em Oxford, acaba de publicar um livro admirável, cujo título é uma pergunta: Haverá razões para ir à igreja? O subtítulo apresenta a Eucaristia como um drama em três actos. O prefácio pertence ao Arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, Primaz da Igreja Anglicana (1). Apresenta o Frei Timothy como um dos mais vivos e criativos pregadores do Evangelho da Igreja Católica de hoje. Isto pouco nos dirá porque os editores portugueses desconhecem a sua obra traduzida em muitas línguas. Quem a frequenta testemunha a alegria de ser cristão em diálogo vivo com a cultura do nosso tempo e com as expressões que ela reveste nos diversos continentes.
O dominicano José Augusto Mourão, Professor da Universidade Nova de Lisboa, com uma vasta obra publicada no campo da Semiótica e da teoria da Literatura, é também um notável criador de linguagem poética da fé e da oração litúrgica. Para alegria de muitos, acaba de sair, com apresentação de José Tolentino Mendonça, a sua poesia reunida (2).
 
(1)       Timothy Radcliffe, Why Go to Church?: The Drama of the Eucharist, Londres, 2009.
(2)       José Augusto Mourão, O Nome e a Forma, Lisboa, Pedra Angular, 2009.

 

 

Frei Bento Domingues, O.P. (Fonte: PÚBLICO, 29.11.2009)

publicado por Re-ligare às 20:23
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