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Domingo, 7 de Fevereiro de 2010
CIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE: UM NOVO DIÁLOGO?, de Frei Bento Domingues, O.P.

 

1.Já passaram quatro séculos depois da condenação de Galileu. O debate público sobre o tema das relações entre ciência e religião continua, embora, polarizado por dois extremos. De um lado, o delírio criacionista, apostado em negar determinadas aquisições científicas em nome de uma leitura fundamentalista da Bíblia. Do outro, a repercussão mediática de certos cientistas como, por exemplo, Richard Dawkins, que julgam poder provar a não-existência de Deus com a ajuda de argumentos científicos. Note-se que se trata de posições bastante marginais nos dois campos. Parece-me sem grande sentido procurar, nas ciências, argumentos a favor ou contra a existência de Deus. As ciências não são religiosas nem ateias.
Entre nós, o Padre João Resina, que foi professor do Instituto Superior Técnico de Lisboa e investigador do Centro de Física da Matéria Condensada, soube marcar sempre, com muita clareza, a distinção entre o campo da ciência e o da religião. Para este grande espiritual e pouco amante de liturgias farfalhudas, os conflitos entre a ciência e a Igreja católica não se colocaram entre duas verdades em conflito – como às vezes se diz –, mas entre duas maluqueiras (1). Apetece-me sugerir a edição, em livro, dos seus textos referidos em nota, para leitura dos estudantes de teologia, dos pregadores e dos catequistas. Sem ter em conta que o clima cultural se modificou a partir da prática das ciências, corre-se o risco de criar dificuldades escusadas, no campo religioso, às crianças e aos adultos, que podem ver conflitos onde não existem. Quando dirigia a catequese na paróquia do Campo Grande (Lisboa), o Padre Resina manifestou a sua preocupação antecipadora: que se fale dessas coisas às crianças antes de se falar no liceu; e que se diga que uma coisa é tudo o que vem de Deus, que é a criação, e outra a maneira como o Universo evoluiu e que não tem nada a ver com religião.
Referindo-se às acusações que lhe faziam em nome da Bíblia, o próprio Galileu observava com ironia: “a intenção do Espírito Santo é ensinar-nos como se deve ir para o céu e não como vai o céu”. Sabia que estava a usar a palavra “céu” em sentidos completamente diferentes.
2. O cientismo positivista nasceu na segunda metade do século XIX. Era seu axioma que só é real aquilo que aparece e só aquilo que aparece. Este cientismo tornou-se uma verdadeira “religião da razão”. De sentidos ocultos – sem o culto do ocultismo – vivem os símbolos, a poesia, a música ou a religião.
O criacionismo nasceu, igualmente, na segunda metade do século XIX, em reacção contra a teoria darwinista da evolução. À versão bíblica fundamentalista, sucedeu outra mais doce que, admitindo a teoria da evolução, tenta provar, pela ciência, a existência de Deus. Esta versão tem o nome de teoria do desígnio inteligente (intelligent design). Embora mais simpática, não consegue, no entanto, escapar às acusações de confusão entre percurso científico e caminho religioso.
Os debates que percorreram o século XX não foram inúteis. A ciência clássica, com o seu sonho da previsibilidade perfeita, afirmava a sua vontade de construir um sistema exaustivo de representação do mundo. Certas religiões também faziam de conta que tinham Deus preso aos seus rituais, aos seus dogmas, às suas teologias e devoções. Também em teologia tudo era previsível, esquecendo o carácter histórico das suas construções e, sobretudo, a falta de vigilância que a teologia negativa – aquela que coloca sempre à perna de qualquer afirmação uma negação – impunha. A bondade de Deus não cabe no que sabemos da bondade humana.
A situação actual, tanto no mundo da ciência como no das religiões, está a tornar-se mais humilde. Os seus respectivos praticantes vão-se dando conta, à medida que avançam, que falta sempre mais do que aquilo que já foi encontrado. Pressentem que o real é infinitamente mais vasto do que o já conhecido.
3. A revista Le Monde des Religions (Jan-Fev.2010) apresenta um longo e interessante dossier sobre os cientistas que propõem um novo diálogo entre ciência e espiritualidade. Charles Townes, para evocar a sua própria experiência, recorda uma das observações de Einstein, escrita em alemão no hall da Universidade de Princeton: “Deus é subtil, mas não é malicioso”. O mundo que Deus criou é complexo e, para nós, difícil de compreender, mas não é arbitrário e ilógico. Sem acreditar que há uma ordem no universo e que o espírito humano – o do próprio investigador – é capaz de compreender essa ordem, o cientista não investigaria. Este género de cientistas recusa a esquizofrenia e a confusão. William Phillips sublinha que o facto do seu conhecimento científico apoia a sua fé. Se esta é não-científica (não significa anti-científica), nada tem, todavia, de irracional.
Poder-se-á dizer que os debates deste dossier não trazem nada que não se possa encontrar em obras especializadas. Sem dúvida. A sua importância é outra: fazer com que um público mais vasto tenha acesso a uma problemática essencial para viver, em convergência, o espírito da investigação científica e o espírito da investigação da fé. É esse o clima em que se deve desenvolver a Pastoral da Igreja.
 
(1)     J. Resina Rodrigues, Sobre a ciência e a fé, Communio I (1984/6), 573-582; Ciência, filosofia e religião, Communio XVII (2000/6), 560-568; Entrevista (Pública, 2007. 04. 12).
 
Fonte: PÚBLICO, 2010.01.24
publicado por Re-ligare às 12:34
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