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Quarta-feira, 7 de Julho de 2010
DEZ TÓPICOS PARA UMA REFLEXÃO CRISTÃ SOBRE A SEXUALIDADE

 

DEZ TÓPICOS PARA UMA REFLEXÃO CRISTÃ SOBRE A SEXUALIDADE

 

1. Quem procura em Jesus de Nazaré (isto é, nas interpretações que dele fazem os Evangelhos, quarenta ou sessenta anos depois da sua morte) elementos para a elaboração de um discurso sobre a sexualidade, fica desiludido. É que Jesus falou muito pouco sobre este tema. Por exemplo, nada diz das numerosas prescrições rituais a que variados textos do Antigo Testamento dâo tanta atenção: de facto, nesses textos a «moral sexual» constitui-se objecto de uma quantidade de prescrições, de que a enumeração exaustiva resultaria fastidiosa (vd., a título de exemplo, Lev. 20:10-21).

 

2. Jesus nunca se detém na condenação da falta que alguém comete, por exemplo a da mulher apanhada em flagrante delito de adultério (Jo 8:11); ou quando declara que as prostitutas, por causa da sua fé, entrarão no Reino dos céus à frente dos fariseus (Mat 21:31,32; vd. tb. Heb. 11:31). E, contudo, Jesus radicaliza as prescrições do Antigo Testamento, indo à raiz do comportamento, no desejo e no olhar (Mat 5:28; 15:19).

 

3. O jardim do Éden (Gén. 2:8 e segs.) não é o lugar de um tempo em que o homem e a mulher existiam como seres não sexuados. Adão e Eva são, desde o princípio, seres sexuados, e o texto não fala de nenhum pecado que tenha surgido das relações sexuais. Nesse extraordinário mito das origens, Adão e Eva não cometem nenhum «pecado original» que seria um pecado sexual: o fruto de que comem é o do conhecimento, que faz com que os seus olhos se abram. A famosa «queda» de Adão e Eva (palavra com que na catequese cristã se tem tradicionalmente exprimido a ideia de uma decadência resultante do pecado) não é uma «queda para baixo», mas sim uma «queda para cima»: é uma passagem dos olhos fechados aos olhos abertos, isto é, do não conhecimento ao conhecimento, da não consciência à consciência (leia-se Gén. 3:5 e segs.).

 

4. A sexualidade não é, pois, o sinal da decadência humana: ela é dom de Deus. O texto bíblico, logo desde o princípio, não se cansa de repetir: a criação de Deus, toda a criação de Deus, é boa, muito boa. A fé do antigo Israel soube elevar-se genialmente àquilo a que poderíamos chamar um sentido da criação, segundo o qual a terra inteira canta com os céus a glória do Eterno. Daí essa magnífica expressão, esse grito de júbilo que o texto bíblico põe na boca do primeiro homem ao descobrir a primeira mulher: «Esta vez, é o osso de meus ossos, a carne da minha carne!...».

Digamo-lo enfaticamente: o espiritual é, aqui, carnal !

 5. Ver nos primeiros capítulos do Génesis a instituição do casamento monogâmico é esquecer, entre outras coisas, que é o próprio Deus quem, alguns capítulos depois, fornece a Abraão (o pai da fé!) a ocasião de praticar a poligamia, prática confirmada pelos descendentes do patriarca. A ideia de que o Criador teria sido, originalmente, o legislador da monogamia resulta, sem dúvida, de uma projecção no passado mais longínquo de uma situação de facto, interpretada teologicamente na perspectiva de uma história restringida ao Ocidente.

 

6. O capítulo 19 do Evangelho de Mateus (vers. 3-12), apresentado habitualmente como fundamento do que teria sido o casamento monogâmico das origens, não tem como tema o casamento. O seu tema é o divórcio (mais exactamente: a legitimidade ou não da carta de repúdio dada pelo marido à sua mulher, de quem ele quer separar-se).

 

7. Em perspectiva histórica pode, porém, dizer-se que o homem e a mulher se têm humanizado ao humanizarem a sua sexualidade, em grande parte, através da disciplina da instituição conjugal. O casamento continua a ser uma aposta cardinal da nossa cultura. É, contudo, uma aposta permanentemente vulnerável, na medida em que entre Eros (o amor erótico) e a instituição do casamento o pacto que se estabelece é vivido sob a ameaça da precariedade. É que, fazer coincidir a singularidade do desejo com a universalidade da instituição é uma aspiração sem garantias.

Convenhamos que o desafio não é fácil: não é fácil atingir a fusão da instituição com o Eros sublimado em ternura. É que institucionalizar Eros, reduzindo-o à dimensão de um contrato, é ofendê-lo.

 

8. O cristianismo, no ensino do seu magistério, tem visto a instituição casamento como o lugar onde a sexualidade se esgota na procriação. Há, porém, que contestar essa perspectiva na medida em que pensar uma ética da ternura implica incluir a procriação na sexualidade e não a sexualidade na procriação.

 

9. De Freud aprendemos que a sexualidade não é simples, e que a integração das suas múltiplas componentes é uma tarefa incessante. Ela é lugar de inscrição de todas as dificuldades, perigos e impasses, mas também de todas as alegrias e de todo o maravilhoso. De Freud aprendemos ainda que o primeiro estatuto da sexualidade é o auto-erotismo, e que o outro sexo é a conquista (sem cessar a reconquistar) que supõe uma renúncia ao mesmo tempo que um desabrochamento.

 

10. «Quando dois seres se entregam ao amplexo de uma união, não sabem o que fazem; não sabem o que querem; não sabem o que procuram; não sabem o que encontram. Que significa esse desejo que os empurra um para o outro? Será o desejo do prazer? Sim, sem dúvida. Mas é uma pobre resposta; porque ao mesmo tempo pressentimos que o próprio prazer não tem o seu sentido nele mesmo: pressentimos que é figurativo. Mas de quê? Temos a consciência viva e obscura de que o sexo participa de uma rede de potências cujas harmonias cósmicas estão esquecidas mas não abolidas; de que a vida é muito mais que a vida; (...) de que a vida é única, universal, toda em todos, e de que é neste mistério que a alegria sexual faz participar.» (Paul Ricoeur).

 

DIMAS DE ALMEIDA

Professor na Lic. em Ciência das Religiões

 

 

 

publicado por Re-ligare às 02:39
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3 comentários:
De poetaporkedeusker a 12 de Julho de 2010 às 14:28
Magnífico texto.
Autorizar-me-ia a deixar, no meu blog principal, sobre soneto clássico, um link para este blogue?

Um abraço

M. João
De dimas de almeida a 13 de Julho de 2010 às 16:58
Prezada Maria João,

é com toda a cordialidade que lhe agradeço não só
a sua reacção ao meu texto, como tmabém toda a
divulgação que dele venha a fazer.
Com toda a amizade,
Dimas
De poetaporkedeusker a 14 de Julho de 2010 às 15:37
Muitíssimo obrigada. Fá-lo-ei ainda hoje.
Abraço grande para si e Suzete.

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