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Terça-feira, 29 de Julho de 2008
Sem lugares sagrados

                   

 
 
 
1. Para quem as não pode ter, é indecente perguntar o que vai fazer das férias e, para quem as tem, a primeira preocupação não é – salvo raras excepções – de ordem artística, filosófica, teológica ou espiritual, mas de ordem económica. Resolvida esta, existem muitas empresas de viagens para todos os gostos, sem esquecer o turismo religioso. Há santuários que atraem milhões de visitantes e peregrinos.
A chamada Terra Santa – terra maldita, terra de todos os ódios – continua a ser um destino obrigatório para pessoas que colam o sobrenatural a certos lugares. Com a declaração do Ano Paulino, os roteiros das viagens apostólicas de S. Paulo serão uma mina apetecível.
As quatro narrativas do Novo Testamento que procuram mostrar, com preocupações e perspectivas diferentes, quem era aquele galileu fascinante, Jesus de Nazaré, nascido há dois mil anos, numa aldeia desconhecida do Império Romano, executado como um malfeitor, perto de uma velha pedreira nos arredores de Jerusalém, quando tinha à volta de trinta anos, não podem ser interpretadas como guias de “lugares santos”.
Seria ridículo, no entanto, desprezar o itinerário concreto, histórico e geográfico de Jesus de Nazaré que continua a apaixonar arqueólogos e historiadores e, aos quais, já aqui, me referi várias vezes. Mostrei também o desejo de ver traduzida e editada, em Portugal, uma obra deliciosa de José Antonio Pagola que, apesar das suspeitas eclesiásticas, teve, em poucos meses, várias edições em Espanha. Acaba de ser publicada em português: Jesus. Uma abordagem histórica (Gráfica de Coimbra 2).
Como diz o autor, a execução de Jesus punha em causa toda a sua mensagem e todo o seu trabalho. Aquele fim tão trágico suscitava uma grande interrogação mesmo nos seus seguidores mais fiéis. Quem teria razão: Jesus ou aqueles que o tinham executado? Deus, de que lado estava? Na cruz, não era só Jesus que tinha sido morto. Com ele, ficava em nada a sua mensagem e as esperanças que suscitara.
Se Jesus tinha ou não razão, só Deus o poderia dizer. Nos textos que chegaram até nós, ainda hoje se pode perceber a alegria dos primeiros discípulos pela descoberta de que Deus não tinha abandonado Jesus: «Aquele que vós crucificastes, Deus ressuscitou-o dos mortos», isto é, confirmou a sua vida e a sua mensagem, tornou-o para sempre uma misteriosa fonte de vida.
2. O rigor histórico não afasta J.A.Pagola de conclusões pastorais. «Jesus não deixou atrás de si uma “escola”, ao jeito dos filósofos gregos para que fosse aprofundada a última dimensão da realidade. Também não pensou em nenhuma instituição que assegurasse no mundo a verdadeira religião. Jesus deu início a um movimento de “seguidores” que se encarregariam de anunciar e desenvolver o projecto do “reino de Deus”. Foi daí que nasceu a Igreja de Jesus. Por isso, não há nada tão importante para nós como renovar, incessantemente, dentro da Igreja, o seguimento fiel da sua pessoa. Seguir Jesus é o único que nos torna cristãos».
O que indignava Paulo de Tarso eram, precisamente, os seguidores de Cristo, as comunidades de judeus que atraiçoavam a Lei de Moisés e as suas tradições. A forma, porém, como se deu a sua conversão desinteressou-o do percurso terrestre de Jesus. Sabia que Ele era da descendência de David, nascido de mulher como toda a gente e sob a Lei de Moisés como qualquer outro judeu. Não era um mito. Mas teve a experiência de que Jesus não estava para trás, estava à sua frente, precedia-o em todos os caminhos do mundo: do crucificado maldito tinha nascido o impossível. Foi essa experiência que fez de Paulo uma nova criatura e o tornou sua testemunha entre judeus e gentios: Deus e a sua salvação não estavam dependentes de nenhum povo, cultura ou religião.
3. S. Paulo percorreu muitos lugares e marcou-os com textos impressionantes. Como diz G. Steiner (em Os Logocratas), Paulo de Tarso foi, além do mais, «um dos muito grandes escritores da tradição ocidental. As suas epístolas pertencem ao número das obras-primas duradouras da retórica, da alegoria estratégica, do paradoxo e dos trabalhos pungentes de toda a literatura. O simples facto de São Paulo citar Eurípedes confirma estarmos na presença de um bookman, de um homem do livro quase nos antípodas do Nazareno que ele metamorfoseia em Cristo. (...) A cristologia paulina desemboca no catolicismo romano, com a sua majestosa estrutura de doutrina e de exegese cristãs, com o corpus imenso das narrativas patrísticas, as obras dos Padres e dos Doutores da Igreja, o génio literário de Santo Agostinho e a Suma, bem intitulada, de Tomás de Aquino».
No cristianismo, porém, as tensões iniciais entre “a Letra e o Espírito” permaneceram e eternizaram-se. O cristianismo não é uma religião do livro. Jesus não escreveu nada, mas provocou dois mil anos de escrita, de música, de arquitectura, de artes plásticas, etc.
Em todas as linguagens, em todos os lugares, em todas as culturas, o cristianismo só tem uma coisa a dizer: quem nos poderá separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8, 31-39)? Seja no trabalho, no descanso, na saúde ou na doença, na vida ou na morte.
Até Setembro!

                  

Frei Bento Domingues, o.p.
(1º Director da Lic. em Ciência das Religiões)
Artigo publicado no lornal Público, no dia 27 Julho 2008

 

publicado por Re-ligare às 11:16
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