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Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011
O Judaísmo: «religião do livro»? - I

É costume usar a expressão «religião do livro» referida às três grandes religiões monoteístas – Judaísmo, Cristianismo e Islão –, a quem teriam sido reveladas as mensagens divinas contidas num livro sagrado: a Tora – a Bíblia – o Alcorão. Esta designação parece provir da fórmula corânica «Ahl al-kitâb [as gentes do Livro]», mas é também bastante corrente no Judaísmo, que se considera a si mesmo como «am ha-sefer [o povo do Livro]». E donde viria esta qualificação?

Hoje em dia, os estudiosos estão de acordo em considerar que o Judaísmo, enquanto religião, surge apenas no início da época persa (ou seja, após o exílio da Babilónia), sendo o resultado de um debate/partilha teológico/a entre vários grupos ou movimentos: por um lado, os «deuteronomistas», que querem um Judaísmo (essencialmente) «religião do Livro»; os «sacerdotes», que consideram que ele deve ser (sobretudo) uma «religião do Culto [sacrificial]»; e os «profetas», para quem o Povo eleito tem uma especial «missão» na terra, a de testemunhar a grandeza de Javé. Neste nosso «teologizar», vamos apenas abordar a perspectiva deuteronomista, começando precisamente por estudar o «mito fundador» da «religião do Livro»: a descoberta do «livro da lei/aliança» no templo de Jerusalém, durante o reinado de Josias ben-Amon (cf. 2Rs 22-23; 2Cr 34-35).

 

 

Da «piedosa fraude» ao «topos literário»

Desde o início do século XIX, altura em que W. De Wette «descobriu» a «fonte» deuteronomista, que este texto adquiriu uma importância extraordinária. Alguns Padres da Igreja haviam já insinuado que o livro descoberto pelo sumo sacerdote Hilkias, no templo de Jerusalém, podia muito bem ser o livro do Deuteronómio, mas foi De Wette quem o demonstrou, pois as reformas religiosas levadas a cabo pelo rei Josias correspondiam perfeitamente às normas do Código Deuteronomista (cf. Dt 12-25). Sem pôr em causa a historicidade deste «achado», os exegetas de Novecentos desenvolveram a teoria da «fraude piedosa»: os sacerdotes e levitas de Jerusalém teriam redigido o Código Deuteronomista para promover a reforma religiosa de Josias – quando este chegasse à maioridade –, tendo-o disfarçado de «Testamento de Moisés» e escondido no templo, de modo a ser facilmente descoberto.

Hoje em dia, porém, duvida-se da própria historicidade da descoberta. Efectivamente, na sua forma final, o relato já tem em conta a destruição do templo e o exílio da Babilónia (veja-se a profecia de Hulda), e parece sugerir que, em definitiva, a purificação do Templo não foi decisiva, tendo a «descoberta» do livro possibilitado adorar Javé sem necessidade de templo algum. A própria análise literária do texto aponta para aí, dado que parece haver duas narrativas que se sobrepõem e que poderiam ser independentes (veja-se a versão paralela em 2Cr 34): a) a narrativa das obras no templo (22,3-7.9) e a reforma religiosa em Judá (23,4-14); b) a narrativa da descoberta do «livro da aliança» (22,8.10-20; 23,1-3) e as reformas «deuteronomistas» (23,15-27). Duvidando da historicidade desta última, os exegetas actuais inclinam-se a considerá-la um «construção [topos] literária» posterior[1].

 

À procura de uma identidade

A análise deste texto fundamental permitiria distinguir três etapas. A primeira situar-se-ia ao nível dos Anais dos Reis de Judá, nos quais era referida uma reforma religiosa levada a cabo por Josias, em Judá (e, particularmente, no templo de Jerusalém). A segunda, no final do período neo-babilónico, momento em que o(s) autor(es) deuteronomista(s) terão introduzido na antiga narrativa o motivo da «descoberta» do livro (bem conhecido na Mesopotâmia), como um sinal divino legitimador de dita reforma. A terceira ocorreria já no período persa, em que a referência ao «livro da aliança» se transforma em fundamento de uma religião sem templo. Mas vamos por partes.

A reforma religiosa de Josias seria o culminar de uma evolução do pensamento religioso em Judá. Embora seja verdade que não existe documento algum do reinado de Josias que prove a veracidade da sua reforma religiosa, há porém importantes indícios iconográficos (glípticos) que testemunham uma mudança importante em finais do séc. VII: os motivos astrais que, desde os finais do séc. VIII, eram característicos dos selos da aristocracia e dos funcionários reais, desaparecem totalmente com Josias – ora, esta situação parece corresponder ao núcleo da reforma religiosa apresentada em 2Rs 23,4-14. Além disso, ao longo do séc. VII, Jerusalém (e o seu templo) foi ganhando cada vez maior importância: se é verdade que as campanhas assírias de Senaquerib haviam destruído, num primeiro momento, a maior parte dos santuários e «lugares altos» de Judá, contribuindo para uma certa «centralização» do culto em Jerusalém, o facto decisivo, porém, é a não conquista da capital, após um prolongado cerco à cidade. Na memória judaica, foi Javé quem salvou Sião (vide Isaías e Salmos) e a escolheu como sua morada (vide lei da «centralização do culto», em Dt 12). Portanto, com toda a probabilidade, no momento em que a Assíria se retira do Levante, Josias promove uma importante reforma religiosa.

Os acontecimentos de 597 e 587 vieram, no entanto, modificar completamente a situação: Jerusalém cai agora nas mãos dos Babilónios e o templo de Javé é destruído. No contexto da mentalidade do Médio Oriente antigo, Javé é um deus vencido e sem futuro; mas não para os escribas de Israel: a chamada «história deuteronomista» (HD) explica o desastre, não como uma derrota de Javé, mas como um castigo pelo «pecado» do povo e dos seus dirigentes (ideia fundamental que se encontra em Juízes, 1/2Samuel e 1/2Reis); por isso, eles convidam o «verdadeiro Israel» (a golah babilónica) à fidelidade à «aliança» que Javé estabeleceu com o seu povo (Deuteronómio), para que possam regressar à Terra da Promessa (Josué).

É possível que a narrativa da «descoberta» do livro – ou da «pedra de fundação» – tenha sido introduzida nesse momento, como motivo tomado de empréstimo à cultura mesopotâmica (veja-se o que acontece nas reformas religiosas de Nabónido). Neste caso, a «descoberta», tal como acontece com o rei da Babilónia, serve a legitimar as importantes reformas religiosas de Josias que, apesar de tudo, não puderam evitar o «desastre», devido sobretudo à acção dos «maus reis» de Judá (Manassés e Amon). No entanto, nos anos posteriores ao exílio, entre 539 e 400 a.C., tem lugar a elaboração da Tora, com a colaboração activa dos «deuteronomistas». Neste contexto, o «livro» descoberto no templo de Jerusalém é, cada vez mais, identificado com o «livro da aliança» ou o «livro da lei [torah]», que não se resume apenas ao Código Deuteronomista (o livro do Deuteronómio), mas é constituído agora por um conjunto narrativo de que fazem também parte outras colecções legais de Israel: o Código da Aliança (Êxodo) e os códigos sacerdotais (Levítico). Curiosamente, o contexto da leitura do «livro da Aliança» por Josias (cf. 2Rs 23,1-3) assemelha-se muito ao da leitura do «livro da Lei [de Moisés]» por Esdras (cf. Ne 8,2-6).



[1] Nota bibliográfica: sobre os Deuteronomistas e a evolução redactorial do texto de 2Rs 22-23, veja-se Thomas Römer, La première histoire d’Israel. L’École deutéronomiste à l’œuvre, Genebra, Labor et Fides, 2007, pp. 55-62; sobre o alcance da descoberta do «livro da lei», ver Jonathan Ben-Dov, «Writing as Oracle and as Law: New Contexts for the Book-Find of King Josiah», in JBL 127, 2 (2008), pp. 223-239; enfim, sobre a exegese recente de 2Rs 22-23, ver ainda David Henige, «Found But Not Lost: A Skeptical Note on the Document Discovered in the Temple under Josiah», in Journal of Hebrew Scriptures, 7 (2007) – http://ejournals.library.ualberta.ca/index.php/jhs/article/view/5657.

 

                  

Porfírio Pinto

Investigador

 

publicado por Re-ligare às 17:41
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