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Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008
METAMORFOSES DAS MISSÕES CATÓLICAS


1.    Com qualidades, estilos e horizontes diferentes, publicam-se, em Portugal, várias revistas missionárias. Hoje, nenhuma delas alimenta qualquer nostalgia do passado que ligava a dilatação da fé à do império.

O Padroado Português resultou de sucessivas concessões e privilégios outorgados pelos papas aos reis de Portugal no decorrer da epopeia marítima. Foi instituído por uma Bula do Papa Martinho V, em 1418, e aguentou-se até finais do século XX.

Depois da anexação de Goa, pela União Indiana em 1961, da revolução de 25 de Abril de 1974, da perda das colónias, da ocupação indonésia de Timor, da passagem de Macau para a China, em 1999, o Padroado morreu e não ressuscitará.

2.    Com a independência de Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, muitos missionários regressaram à pátria de origem. Algumas igrejas africanas já tinham proposto, nos anos 60, uma “moratória” às actividades missionárias estrangeiras. Entretanto, muita coisa passou debaixo das pontes da descolonização. Tudo foi reavaliado e a “evangelização inculturada”, em clima de diálogo intercultural e inter-religioso, tornou-se a temática dominante. A convocatória para a urgência de uma “Nova Evangelização” da Europa parecia levantar a questão: porque partir para longe, quando é o nosso continente pós-cristão, esquecido das suas raízes, que se tornou uma áspera “terra de missão”?

Se partir era fugir, ficar seria trair um cristianismo sem fronteiras reivindicado, contra ventos e marés, por S. Paulo há dois mil anos. O horizonte universal, no apreço pelas diferenças de povos e culturas, tornou-se o sentido irrenunciável da evangelização.

3.    A revista “Além-Mar” dos missionários combonianos optou, de forma instruída, por reconfigurar, número após número, a superação dessas aparentes incompatibilidades. Só uma Igreja que se entende a si mesma a partir da missão será evangelizadora, esteja onde estiver. O Bispo António Couto, entrevistado por “Além-Mar”, observa que, a nível interno e no que à actividade missionária diz respeito, a Igreja portuguesa tem estado e permanece bastante sossegada, no mau sentido, limitando os seus esforços a uma pastoral de manutenção, alimentando apenas e cada vez com maiores dificuldades, os ministérios tradicionais. Sustenta que é absolutamente imperioso e urgente que a Igreja portuguesa se empenhe numa vastíssima campanha de verdadeira formação de evangelizadores, para que se possa levar o Evangelho a todas as camadas da população portuguesa. Não podemos mais ficar tranquilamente dentro das igrejas, sacristias e salões paroquiais, de braços cruzados, à espera que as pessoas venham ter connosco. Somos nós que devemos ir ao encontro das pessoas.

Neste número de Setembro, a revista continua a sair das nossas fronteiras e apresenta um dossier especial sobre a Ásia. São vinte e sete páginas de estatísticas e informações de fundo acerca de 46 países do maior e mais habitado continente do planeta, dotado de pujantes tradições culturais, religiosas e éticas servidas por exigentes disciplinas de vida.

Não são poucos os observadores convencidos de que o século XXI vai ser o século da Ásia, carregada de promessas, contrastes e ameaças.

No mês passado, a capital da China não foi apenas o centro do mundo desportivo, onde os atletas asiáticos brilharam e os chineses conquistaram o maior número de medalhas de ouro. As celebrações que abriram e encerraram os Jogos Olímpicos encheram de espanto os olhos de todos os telespectadores. Já no século XVI, um dominicano português, Frei Gaspar da Cruz – que escreveu em 1569 o primeiro livro europeu, muito plagiado, sobre as “Coisas da China” – revelou os seus espantos à Europa do seu tempo, destacando também as dificuldades da evangelização desse mundo (1).

Ao fim de três anos de pontificado, a visão de Bento XVI acerca do papel da Igreja na Ásia, e nomeadamente na China, abordada na citada revista, está semeada de perplexidades. Neste sentido, merecem leitura atenta as reflexões sobre a Carta de Bento XVI à Igreja na China, de Sávio Hon Tai-Fai, SDB, publicadas no “L’Osservatore Romano” (30/08/2008). Vê com olhos chineses o que escapa aos olhos europeus. Com olhos europeus, Anselmo Borges, no artigo “Os Jogos Olímpicos: liberdade e religião” (DN, 30/08/2008), levanta
questões incontornáveis para todos.

Não basta desejar que o continente asiático, e nomeadamente a China, se abra ao Evangelho. Importa que as testemunhas do Evangelho se interroguem acerca das dificuldades que têm em compreender e assimilar as identidades culturais, religiosas e políticas desse continente de imensos contrastes.

 
_________________________________
 
(1)  Frei Gaspar da Cruz, Tratado das coisas da China (Évora 1569-1570). Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Cotovia, Lisboa.

 

 

Frei Bento Domingues, O.P.

1º director da Licenciatura em Ciência das Religiões

 

Artigo do Público de 14 de Setembr de 2008.

publicado por Re-ligare às 00:59
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