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Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008
O SERMÃO DO CÓNEGO LAICO E REPUBLICANO

 

1.Os dias que o romano pontífice passou em França serviram, além do mais, para mudar o olhar de muitos franceses sobre o Papa e para alterar a ideia de Bento XVI sobre o papel da Igreja na sociedade francesa. Reunir 260 mil pessoas em Lourdes e cerca do mesmo número em Paris revela capacidade de convocação. Tornou-se evidente, para a opinião pública, que o catolicismo é uma dimensão bem presente na paisagem social e religiosa de França.
O Papa teve várias intervenções, mas o grande sermão foi proferido pelo presidente do Estado mais laico da Europa, Nicolas Sarkozy. Uma surpresa oportunista? Talvez nem tanto. Já quando era o encarregado dos cultos, no governo anterior, deu a entender que a prática da laicidade não podia evitar novas interpretações e evoluções, tendo em conta as mudanças da sociedade francesa.
Como presidente da República, foi-lhe conferido, no dia 20 de Dezembro de 2007, o estranho título de cónego honorário do cabido da basílica de S. João de Latrão, sede do Papa, Patriarca do Ocidente, bispo de Roma. Henrique IV, rei de França, doou, em 1604, uma abadia francesa a esse cabido. Em reconhecimento, este atribuiu-lhe, e aos seus sucessores, o título de cónego honorário. Entre os últimos presidentes franceses, De Gaulle e Valéry Giscard d’Estaing foram a Roma receber esse título. Pompidou e Mitterrand abstiveram-se. Nicolas Sarkozy justificou a decisão de o acolher: «Ao vir esta noite a S. João de Latrão e aceitando o título de cónego honorário desta basílica, assumo plenamente, na minha pessoa, o passado da França e o laço particular que, desde há muito tempo, une a nossa nação à Igreja».
2. Podia ter ficado por aqui que já não era pouco, mas foi mais longe. Sabendo que já ninguém põe em causa a separação da Igreja e do Estado, que a tradição laica perdeu a sua irritante agressividade, que a tradição católica já não exerce uma posição dominante ou hegemónica, como no passado, aproveitou para enunciar e desenvolver, com brilho, o conceito de «laicidade positiva», que leva o Estado a reconhecer e a valorizar o papel das religiões na sociedade, destacando as raízes essencialmente cristãs da França. País que, entretanto, conta com uma presença significativa do Islão, com diversas formas de descrença, de agnosticismo ou indiferença religiosa que também fazem parte da cultura ambiente, sem esquecer a sedução que exercem certas espiritualidades mais ou menos esotéricas ou místicas. Ao reconhecer aquilo que ele chama «aspiração espiritual», a necessidade de espiritualidade numa sociedade bastante secularizada, afirma, também, que a França precisa de católicos convictos que não receiem afirmar-se como tais e mostrar aquilo em que acreditam.
Em suma, o Estado deve garantir o exercício de liberdade de consciência a todos os cidadãos, sejam eles laicos, agnósticos ou crentes, mas é preciso compreender que as religiões nasceram para satisfazer necessidades que o Estado não pode desconhecer nem satisfazer. Importa, no entanto, que as religiões e as Igrejas sejam reconhecidas como referências de vida e não como forças políticas ou grupos de pressão, suas tentações permanentes.
3. Com este cónego, presidente da República, o Papa não tinha nada a temer da laicidade «à francesa». Pelo contrário. A «laicidade positiva» já tinha sido proclamada em Roma, na sede da cristandade, por Sarkozy que, agora, recebia Bento XVI com palavras que ninguém podia contestar: «na República laica que é a França, todos vos acolhem com respeito enquanto chefe de uma família espiritual».
Assumiu, do pensamento do Papa, não só a defesa da compatibilidade entre fé e razão, como o reconhecimento de que a especificidade e a fecundidade do cristianismo não são dissociáveis do seu encontro com os fundamentos do pensamento grego. Também a democracia é mais do que a adição aritmética dos votos e dos movimentos passionais dos indivíduos. Precisa das luzes da razão, de argumentar, de procurar honestamente o que é bom e necessário, de respeitar os princípios essenciais reconhecidos por aquilo que se chama o entendimento comum. Não receou acrescentar: também é legítimo para a democracia e é uma forma de respeitar a laicidade dialogar com as religiões. Estas, e nomeadamente a cristã com a qual a França partilha uma longa história, são patrimónios vivos de reflexão e de pensamento, não só sobre Deus, mas também sobre o ser humano, sobre a sociedade e mesmo sobre as preocupações, hoje centrais, como é a natureza e a defesa do meio ambiente. Privar-se desse património, seria uma loucura e um pecado contra a cultura e contra o pensamento. É por isso que apela, novamente, a uma laicidade positiva, que respeita, que reúne, que dialoga e não a uma laicidade que exclui e denuncia. A laicidade positiva oferece às consciências, para lá das crenças e dos ritos, a partilha de uma busca de sentido a dar às nossas existências.
A posição de N. Sarkozy é discutível. Ainda bem. Já se perdeu demasiado tempo a repetir dogmas laicos e eclesiásticos.

    

Frei Bento Domingues, O.P.

(1º director da LIc. em Ciência das Religiões)

                  

artigo do Público, 22 de Setembro de 2008.

publicado por Re-ligare às 10:27
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