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Terça-feira, 28 de Outubro de 2008
Espiritualidade do provisório

1.Nos anos incendiados pelo Maio de 68, quando todos os fundamentos pareciam abalados, interessei-me pela “Dinâmica do provisório” do Irmão Roger Schutz, da célebre comunidade de Taizé. Com ar de troça, um amigo dizia: mas esse Irmão Roger não saberá que, em Portugal, há cigarros “provisórios” e “definitivos”? Os definitivos não tiveram mais sorte do que os provisórios. Pelo contrário, na Igreja católica, nos finais dos anos 80 do século passado, até algumas proposições que pareciam provisórias – não são dogmas de fé – passaram a ter estatuto de “verdades definitivas”. Não pretendo, como Qohélet, render-me à lei do provisório – ilusão das ilusões, tudo é ilusão: “Há tempo para nascer, tempo para morrer; tempo para plantar, tempo para arrancar o plantado”(Ecl 3,2). No entanto, para S. Paulo, só a caridade, o mais alto dom do Espírito (agapé) – o amor irrestrito e incondicional ao próximo – é para sempre: Ainda que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse amor, eu nada seria. Ainda que distribuísse todos os meus bens e entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse amor, isso nada me adiantaria. (…) O amor jamais passará. (…) Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor; mas a maior delas, porém, é o amor (1Cor 13, 2-13). A fé e a esperança são, apenas, virtudes do caminho. Tomás de Aquino (1224/1225-1274), num outro contexto cultural, dirá que a lei do Novo Testamento consiste principalmente na graça do Espírito Santo, graça do amor e da liberdade. Tudo o resto conta na medida em que prepara o seu acolhimento, favorece e exprime a sua floração e os seus frutos (ST, I-II, q. 106, a.1). 2. Seria, porém, temerário desprezar a Igreja como instituição em nome da pureza do Evangelho de Cristo, esquecendo que o Verbo se fez “carne”, fragilidade humana. O Evangelho da fraternidade precisa da instituição para que a sua energia não se dissolva. Importa, no entanto, que as instituições e as leis das Igrejas não se tornem um objectivo ou um fim. Só têm sentido como instruções e recursos de viagem. Christian Duquoc escreveu, precisamente, uma obra de eclesiologia ecuménica sobre o carácter provisório das Igrejas (1). A sua tese, embora subtil, é simples. A Igreja de Cristo afirma-se na multiplicidade das Igrejas, mas elas não devem seguir a tendência para a exclusão, lei natural dos grupos. Nenhuma deve estar tão imersa no profano a ponto de já não se diferenciar dele; nenhuma deve assumir o profano com a ilusão de o transubstanciar. A visibilidade das Igrejas não é a antecipação do Reino de Deus: nem na forma de celebrar, nem na vida social, nem no valor espiritual. Essa visibilidade serve para afirmar uma ordem simbólica, abrindo o quotidiano a uma dimensão de gratuidade e de comunhão, traço de Deus em Cristo. O modelo das Igrejas cristãs deve ser o acontecimento da Páscoa: Aquele, que todos julgavam definitivamente morto, vive para sempre. Elas devem proclamá-lo, no quotidiano, transformando a vida. 3. A objecção a esta esperança é grave: a nossa história desenrola-se sob o domínio da violência e a morte parece vitoriosa; as Igrejas nem sempre reconhecem que são provisórias nas suas formas, imperfeitas e criticáveis nas suas opções e condutas. Diz-se que o Espírito de Cristo nunca faltará à Igreja, mas as Igrejas, santas e pecadoras, podem faltar à convocatória da sua Palavra. Numa leitura retrospectiva, não reparando no que falhou, é sempre possível dizer que, em cada época, surgiram as iniciativas de que precisavam para se manterem em movimento (2). João Paulo II, secundado pelo cardeal Ratzinger, destacou a importância dos novos movimentos eclesiais, privilegiando aqueles que reproduzem as suas opções. Mas é uma maneira de dizer que também esses são provisórios. O Graal, um movimento internacional feminino, surgiu em 1921, na Holanda. Com a participação de mulheres de vários mundos, celebra, neste fim de semana, em Fátima, o jubileu da sua entrada em Portugal, interrogando a sua história no horizonte do futuro: «Que raízes e que espírito nos moveram no passado e nos movem hoje? Como identificar hoje os grandes desafios do mundo? Será possível proteger a Terra duma catástrofe ecológica? Que acessos trilhar para uma vida de qualidade para todos? Terão as mulheres um gesto diferente ou a igualdade é o alvo? Poder-se-á passar do medo da diferença cultural ao louvor da alteridade? Que ética para enfrentar os novos problemas?» Enquanto “tribu” dentro da comunidade da Igreja, o Graal investe numa liturgia ligada aos problemas e questões do mundo actual, expressão de uma Igreja inclusiva e aberta a todos, inscrevendo-se nas inquietações espirituais do nosso tempo. A espiritualidade do provisório não é a resignação à ditadura do momento, à sedução do evanescente. É um caminho de sabedoria que, no quotidiano agitado e fragmentado, escuta a voz do Mistério presente em tudo para nada idolatrar.

            

(1) Des Églises provisoires. Essai d’ecclésiologie œcuménique, Paris, Cerf, 1985.

(2) Fidel González Fernández, I movimenti dalla Chiesa degli apostoli a oggi, Milão, Rizzoli, 2000.

               

Frei Bento Domingues, o.p.

(1º director da Lic. em Ciência das Religiões)

 

publicado por Re-ligare às 21:41
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